Convivo bem de perto com dois pequenos jovens artistas. São os meus filhos: Mayla de 7 anos e o Pedro de 3. Certo dia eles sentaram pra pintar.
A Mayla fez o Homem do Jornal.
Se você não entende muito de arte eu vou te ajudar a entender. A pintura é a imagem de um homem pegando um jornal num prédio visto de lado.
O Pedro fez a Estrufição.
Se você não entende muito de arte, te ajudo novamente. Estrufição, segundo o Pedro, é quando tem muita bagunça, muita confusão. Não sei bem a origem da palavra, mas acredito que a inspiração para a pintura foi a própria arrumação do quarto do artista.
Em uma celebração cultural da pixação, também conhecida por “pixo”, o Espaço Matilha Cultural recebe, do dia 13 a 31 de julho, a mostra Caligrafia Mau Dita, dedicada ao trabalho do grupo Os Muito Loucos e convidados da cidade de São Paulo e ABC.
A exposição compreende todo tipo de material gráfico produzido pelo grupo, como esboços caligráficos e folhinhas (peças trocadas entre grupos de pixação para manter viva sua cultura caligráfica). Entre outros destaques do evento, estão o lançamento do documentário Caligrafia Mau Dita, dirigido por Jey (Flávio Ferraz, um dos organizadores da mostra), fotografias de João Wainer e Victor Moriyama e ilustrações de Paulo Ito, artista plástico e ilustrador que aborda o pixo em linguagem de HQ.
+Informações: Exposição: Caligrafia Mau Dita Data: de 13 a 31 de julho de 2010 Local: Espaço Matilha Cultural Endereço: R. Rego Freitas, 542, São Paulo Horário: de terça-feira a sábado, das 12h às 20h Site:Matilha Cultural
Além de dados ótimos para entendermos um pouco mais da nossa sociedade, o vídeo também mostra a produção artística do graffiti, uma arte marginal. Marginal assim como milhares de pessoas que vivem sem um lugar para morar.
O primeiro que, cercando um terreno, se lembrou de dizer: “isto é meu”, e encontrou criaturas suficientemente idiotas para o acreditar, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil.
- Trecho de “Discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens” de Jean Jaques Rousseau
Se eu tivesse que responder à seguinte questão: o que é a escravidão?, e a respondesse numa única palavra: é um assassinato, meu pensamento seria logo compreendido. Eu não teria necessidade de um longo discurso para mostrar que o poder de tirar ao homem o pensamento, a vontade, a personalidade é um poder de vida e de morte, e que fazer um homem escravo é assassiná-lo. Por que então a esta outra pergunta: o que é a propriedade?, não posso eu responder da mesma maneira: é um roubo, sem ter a certeza de não ser entendido, embora esta segunda proposição não seja senão a primeira transformada?
…
Sim, todos os homens acreditam e repetem que a igualdade de condições é idêntica à igualdade de direitos; que propriedade e roubo são termos sinônimos; que toda proeminência social, concedida ou, para melhor dizer, usurpada sob o pretexto de superioridade de talento e de serviço, é iniqüidade e pilhagem: todos os homens, eu digo, atestam estas verdades em sua alma; trata-se só de fazê-los descobrir.
- Trechos de “A propriedade é um roubo” de Pierre Joseph Proudhon.
Já imaginou se A Metamorfose de Franz Kafka fosse escrita nos dias atuais? Qual seria o emprego de Gregor Samsa? Pela personalidade introspectiva, eu imagino que uma das possibilidades é a TI.
Se você não conhece o livro, ele conta a história de um caixeiro viajante que trabalhava duro para ajudar sua família, e que, num certo dia, acordou como uma barata gigante. Sim, é surreal, mas é um ótimo livro, um clássico da literatura que nos faz refletir muito.
Quando vi essas fotos, tudo isso me veio à cabeça. Além de tudo, o visual é demais.
Um amigo meu me perguntou o que eu achava da pixação no Cristo. Ironicamente respondi: um pecado.
Depois disso, muita gente veio discutir, pois sabem que defendo a pixação como arte. Acredito que esse fato em si, como se trata de ano de eleição, tem muita coisa por trás.
Aqui no Brasil o pessoal apronta mais nas eleições do que no carnaval. A frase pichada (com “ch” porque essa não se tratava de arte) perguntando da tal Engenheira Patrícia e a desculpinha dada pelo detido é de morrer.
No cristo estava pichado: “Onde está a engenheira Patrícia“. E depois de preso, o responsável disse que: “era um alerta sobre as inúmeras pessoas que desaparecem no Brasil“. Ah, vai se fuder né?
Mas voltando à discussão, um outro amigo me fez a seguinte pergunta: “Uma arte continua sendo arte quando degrada outra?” Eu lhe respondi com outra pergunta: “Uma vida continua sendo digna mesmo quando degrada outra?”
Não quero ser radical, mas acho que a partir dessa reflexão é possível entender melhor a pixação.
Acho triste ver a que ponto nossa sociedade chegou. Ter um cartão postal internacional pixado e mesmo assim, muitas pessoas continuarem sem enxergar o que está acontecendo. Continuam vivendo na superficialidade do senso comum do jornal nacional.
Acredito que nessas fotos tenha ficado claro que a pixação é um sintoma de pele de uma sociedade doente.
Pixação, com “x” é a pichação arte, diferente das pichações de antes dos anos 80, que eram políticas ou de bandas Punks e Heavy Metal. Você deve estar se perguntando: ARTE? Calma, eu vou chegar lá.
A Caligrafia Árabe, durante muito tempo foi uma das únicas representações artísticas permitidas pelo Islã. Segundo uma revelação trazida por Maomé, era proibida qualquer representação gráfica realista. A partir daí, todo poder criativo do povo árabe se voltou para a caligrafia, tornando-a uma obra de arte indiscutível. Da opressão nasceu a arte.
(isso estampado num muro, seria vandalismo?)
A pichação nasceu com protestos políticos, durante os anos 80 estampou nomes de bandas. Seu visual é inspirado nas runas. Exatamente a partir desses anos, a população brasileira praticamente dobrou, as cidades ficaram maiores e muitas pessoas foram excluídas.
Nascem as favelas, a periferia e toda as comunidades que passam a viver como refugiados dentro do seu próprio país. É nessa comunidade que vivem os pixadores. Muitas vezes barrados na porta de shoppings, lojas ou de bancos, a maneira que eles encontram de “marcarem presença” é através do pixo.
A caligrafia evoluiu, existe uma gama de estilos. E assim como a caligrafia árabe, a pixação nasceu da opressão.
Você pode continuar considerando pixação vandalismo, mas como diria Hakim Bey, é a arte como crime e o crime como arte.O pixo é uma arte de protesto. Você acha que a pixação deixa a cidade feia? E o esgoto a céu aberto? As favelas? As escolas sucateadas, abandonadas pelo governo? As ruas sem pavimentação e sem iluminação das periferias? Isso você acha bonito?
Como diria Choque (pixador): “a pixação surge como uma doença de pele na cidade, que põe entranhas pra fora. Compreendendo a pixação, a sociedade estará compreendendo ela própria, pois toda manifestação artística é reflexo direto dos acontecimentos e valores da sua época. Olhar para a pixação é olhar pra dentro de si próprio, e com certeza, você verá muitas coisas que não irão agradar.”
“A sociedade que nos critica é a mesma que nos educa”