Visitando meus pais numa cidade do interior de São Paulo, resolvi cortar o cabelo. Sem muitas indicações, escolhi um daqueles barbeiros à moda antiga: simples, barato e prático. Na fila de espera havia duas pessoas, comigo três, e um rapaz acabava de se sentar na cadeira para raspar a cabeça.
Na maior parte do tempo, o assunto corrente era futebol. Até que, então, o rapaz sentado na cadeira mencionou algo sobre um testemunho de um ex-jogador no canal de televisão de uma igreja. Foi então que o barbeiro começou a falar.
– É, meu irmão, é preciso entregar a vida a Deus. Olha ele ali – apontou para um rapaz que aguardava sua vez – Ele trabalhou a vida toda, agora está fazendo seminário. As pessoas se preparam pra entregar a vida a Deus. Eu não estudei, mas pago o dízimo certinho. Não existe aquela conversa de “o que sobrar eu dou pra igreja”, isso é dar o resto pra Deus, é não confiar Nele. Se você ganha mil reais, tem que separar 10% assim que receber. Tira o dízimo e você vai ver que com o restante você consegue pagar suas contas e o Senhor ainda vai fazer sobrar um pouco.
– Você tem razão, irmão – respondeu o rapaz sentado na cadeira do barbeiro.
O barbeiro continuou com sua eloquência. Contou mais histórias sobre o seminarista, parecia conhecê-lo de longa data. Então, voltou-se para um senhor de barbas longas e brancas e perguntou: – Não é mesmo que só Deus pode guiar nossas vidas?
Prontamente o senhor barbudo respondeu:
– Não acredito em nada disso. Não tenho religião e não acredito em um Deus interessado em mandar na minha vida. Para mim, isso tudo parece uma grande loucura.
– Loucura?! Noé levou 120 anos para construir a arca. Todos os chamavam de louco, mas ele manteve sua fé, pregou a palavra do Senhor e construiu a arca. Só quando viram subir os animais em pares que as pessoas começaram a acreditar nele. Quando veio o dilúvio, eles viram quem é que estava errado – exclamou o barbeiro, já limpando os cabelos da cadeira. O rapaz que acabara de ser atendido, de olhos arregalados, agradeceu pelo corte e pela palavra abençoada do barbeiro.
O senhor de barbas brancas preferiu não dar continuidade ao assunto, apenas sacudiu a cabeça e se encaminhou para a cadeira. O barbeiro insistiu:
– E você sabe quem fechou as portas da Arca de Noé? Os anjos do Senhor, pois nenhum homem tinha força suficiente para fechá-las. Loucura? Está escrito na Bíblia.
Desviando o assunto, o senhor sentou-se na cadeira e disse:
– Quero aparar a barba, só um pouco. E o cabelo, pode cortar bem curto, esse calor está demais.
– Vamos começar pela barba, então – respondeu o barbeiro indignado.
Com a navalha na mão, o barbeiro margeou a barba na sua parte de baixo. No meio do caminho, investiu contra a garganta do senhor, o sangue começou a correr lentamente.
Olhando para o teto, a boca do senhor encheu de sangue antes mesmo que ele conseguisse gritar.
Em silêncio e com as mãos sujas, o barbeiro fez o sinal da cruz, fechou os olhos do morto e começou a rezar com o rosto marcado pelo sangue do senhor.
Late Bloomers – O amor não tem fim, esse é o título de um filme que assisti.
Uma comédia dramática que conta a história de um casal que se aproxima dos sessenta anos de idade. O marido, arquiteto, tenta se manter jovem e atualizado, enquanto a esposa, procura se adaptar à terceira idade.
Tudo isso, gera vários conflitos entre o casal. Mas o mais interessante é como eles se conversam pelo olhar. Sem dizer nenhuma palavra, só pelo modo de olhar, por um leve inclinar de cabeça e com gestos sutis das mãos, frases inteiras são ditas. O casal trava diálogos apenas com os olhares. Uma intimidade ímpar, que acredito que o tempo de convivência pode trazer.
Pode soar estranho no mundo machista em que vivemos onde homens devem gostar somente de tiros e explosões, mas eu gosto de comédias dramáticas. Existe sensação melhor do que quando estamos com os olhos cheios de lágrimas e surge uma cena que nos faz rir? Eu não conheço.
Choro e riso é o que acontece quando somos dominados pela emoção, não tem nada mais forte, a razão vai toda por terra. Pra mim, aprender a desfrutar do riso e do choro é o que nos torna melhor. O cinema estava bem vazio. Num mundo perfeito, acredito que mais pessoas gostariam de comédias dramáticas.
Voltando ao filme, embora eu ainda esteja na casa dos trinta, me identifiquei muito com o casal. Sempre penso no meu envelhecimento, acompanho o envelhecimento dos meus pais. Imagino meus filhos crescidos e com autonomia. Ainda me lembro de um poema que escrevi para minha esposa, quando ainda namorávamos, contando como seríamos no futuro, um casal de velhinhos apaixonados. Foi um dos meus primeiros poemas.
De forma um pouco adolescente e com rimas bem duvidosas, o poema falava sobre essa intimidade, onde um olhar basta para se fazer entender. Falava também da companhia, que nenhuma outra atividade, nem a literatura, é capaz de suprir ou superar. E o filme, também falava de tudo isso com belas imagens, ótimas interpretações e diálogos fortes. É um filme delicioso de se ver, leve e comovente ao mesmo tempo.
Num mundo perfeito eu choraria no final, mas no mundo machista em que vivemos, esperei os créditos passarem, respirei fundo e sai firme do cinema.
O jornalista Amaury Ribeiro Jr. acabou de lançar um livro sobre o nebuloso processo de privatizações do governo FHC (tucano), que tinha como ministro José Serra. Dizem que o PSDB quer censurar o livro, ele esgotou no primeiro dia de venda.
Quando o sol sair do céu
traga-o pra casa
te espero na porta
com café e pão
e o doce que você mais gosta
Quando o sol sair do céu
vai fazer frio
traga cobertores
tenho um fondue e um filme
esperando por nós dois
Quando o sol sair do céu
não haverá mais céu
só espaço
e quem sabe
podemos ver algumas estrelas
Quando o sol sair do céu
ainda poderemos ver a lua
te espero como quem não quer nada
pois já tenho um pedaço do céu
no canto da nossa janela
Quando o sol sair do céu
meus olhos não doerão mais
vou poder dormir
não se sente longe de mim
quero procurar seu colo no escuro
quero me aquecer em você
pois quando o sol sair do céu
o mundo ficará mais frio
Quando o sol sair do céu
vamos dançar no escuro
pode ser que a luz não volte
me envolva em seus braços
pode ser o fim de tudo
mas não para nós
só nós temos tempo a perder
venha, vamos dançando
dancemos a noite toda
para não sentirmos mais falta do sol
Parksoniano com ascendente em Alzaimer
o cérebro frito aperta porcas
em parafusos espanados
é a Hanseníase da alma
o prurido de espírito
esquizofrenia dos sentidos sem significado
insana razão de ser
esclerose múltipla sem personalidade
subjetividade domesticada, encravada
uma anestesia no canino que balança
na certeza entorpecente da verdade
reflexos sem resposta
numa paralisia infantil bizonha
ele rasteja com muletas metafísicas
escadas de si mesmo
Essa é uma campanha opensource, criada nos comentários do blog do CCVP. O resultado ficou bem legal. Tempos depois, a @sixmony encontrou-a e decidimos revivê-la e divulgá-la. A Direção de Arte é do @jair_jr e a redação é minha @luizcarioca. Espero que gostem.
Baixe os cartazes aqui. Espalhe pela sua escola, bairro, onde achar interessante. Incentive a leitura. A distribuição e reprodução é totalmente livre.
A polícia já não sabia mais o que fazer. A mídia lançava notícias, informando que faltava pouco para desvendar o mistério do matador, mas, nos bastidores, ninguém tinha a menor pista desse serial killer de jogadores de futebol.
Sua ação era imprevisível porque, acima de tudo, dependia do andamento do jogo. Era impossível saber em que jogo ele agiria. A única coisa que todos sabiam é que ele, com uma mira implacável, dava um tiro fatal no peito do atacante que perdesse um gol feito, daqueles que todo torcedor diz: esse até minha vó fazia.
Já haviam acontecido três mortes. A primeira vítima isolou um pênalti num jogo da Seleção Brasileira. A segunda perdeu um gol de cabeça dentro da pequena área. A terceira driblou o goleiro, tentou fazer de letra e errou o gol. Cada um dos três jogadores caiu com um tiro fatal que acertava o peito, furando o brasão do uniforme. A polícia não sabia sequer se ele estava no estádio ou em algum prédio vizinho nos momentos dos disparos. Nem mesmo se era apenas um atirador ou um esquadrão que não perdoava gols perdidos.
Rafael acabava de retornar para o Juventus, clube no qual havia sido revelado, para encerrar a sua carreira. A volta do jogador, que já fora eleito o melhor do mundo, atraiu muitos patrocínios, mercenários e sanguessugas ao pobre time que acabara de subir para a primeira divisão do campeonato brasileiro. No começo da temporada, Rafael marcou muitos gols na segundona do paulistão. Isso tornou cada vez mais concreto o sonho do milésimo gol. Mas no brasileiro a história era outra. Jogadores de diferentes patrocinadores, atraídos pela mídia que Rafael trazia consigo, garantiam sua posição no grito e no dinheiro. Muitos deles não se falavam nos vestiários. E era visível a desunião da equipe: certa vez, foi preciso até mesmo separar uma briga entre jogadores do mesmo time. A defesa era uma água, o meio não funcionava. Rafael e seu companheiro de ataque ficavam às moscas. A cada partida, o rebaixamento se tornava mais concreto e inevitável.
Contra a rival Portuguesa, o Juventus perdia de sete a zero. Rafael só precisava de mais um gol para alcançar o milésimo. Até que, então, o árbitro marca pênalti para o Juventus. As emissoras de TV passaram a transmitir o momento ao vivo. As torcidas dos dois times ficaram de pé e gritavam o nome de Rafael. Será que mais um jogador brasileiro se consagraria com o milésimo gol? Era o que todos esperavam. Seu parceiro de ataque trouxe a bola e entregou nas mãos de Rafael. Por um minuto o artilheiro pensou: se marcasse, eternizaria seu milésimo gol numa derrota histórica, num vexame; se perdesse, poderia fatalmente ser alvo do matador.
Com as mãos na cintura Rafael olhava nos olhos do goleiro tentando enxergar o futuro. Pensou, suspirou, sentiu o suor que escorria de sua cabeça raspada que escondia alguns cabelos brancos. Rafael partiu para a bola e chutou com toda a sua força. A bola passou alguns metros acima do gol e foi parar na torcida, que catatônica, não acreditava no que acabava de ver. Rafael decidiu que enfrentar a derrota seria pior do que morte, pois teria que aprender a conviver com ela.
Colocou as mãos na cabeça e fechou os olhos esperando pela picada fatal em seu peito. De repente, sente um empurrão. Policiais e jogadores se jogaram em cima dele para protegê-lo. Os câmeras e os fotógrafos varriam as arquibancadas e prédios com suas lentes de longo alcance. Depois de um tempo, Rafael se levantou. Nenhum sinal do atirador.
No dia seguinte, todos os jornais crucificaram Rafael que, segundo eles, não servia nem para fazer gol de honra. A imprensa passou a tratá-lo como um desonrado, responsável pela decadente campanha e pelo rebaixamento do Juventus. Mas o que nenhum jornal falou foi que, depois do dia do pênalti perdido por Rafael, nunca mais o matador voltou a agir. Perderam-se inúmeros gols e nenhum outro jogador foi abatido.
Em casa, aposentado e com a família, Rafael mandou enquadrar sua foto com as mãos na cabeça após perder o pênalti. Toda vez que olhava para ela, ele tinha a certeza de que ainda, em algum lugar, ainda lhe restava um fã.
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