setembro 14th, 2011 § § permalink
Essa é uma campanha opensource, criada nos comentários do blog do CCVP. O resultado ficou bem legal. Tempos depois, a @sixmony encontrou-a e decidimos revivê-la e divulgá-la. A Direção de Arte é do @jair_jr e a redação é minha @luizcarioca. Espero que gostem.
Baixe os cartazes aqui. Espalhe pela sua escola, bairro, onde achar interessante. Incentive a leitura. A distribuição e reprodução é totalmente livre.




agosto 30th, 2011 § § permalink

A polícia já não sabia mais o que fazer. A mídia lançava notícias, informando que faltava pouco para desvendar o mistério do matador, mas, nos bastidores, ninguém tinha a menor pista desse serial killer de jogadores de futebol.
Sua ação era imprevisível porque, acima de tudo, dependia do andamento do jogo. Era impossível saber em que jogo ele agiria. A única coisa que todos sabiam é que ele, com uma mira implacável, dava um tiro fatal no peito do atacante que perdesse um gol feito, daqueles que todo torcedor diz: esse até minha vó fazia.
Já haviam acontecido três mortes. A primeira vítima isolou um pênalti num jogo da Seleção Brasileira. A segunda perdeu um gol de cabeça dentro da pequena área. A terceira driblou o goleiro, tentou fazer de letra e errou o gol. Cada um dos três jogadores caiu com um tiro fatal que acertava o peito, furando o brasão do uniforme. A polícia não sabia sequer se ele estava no estádio ou em algum prédio vizinho nos momentos dos disparos. Nem mesmo se era apenas um atirador ou um esquadrão que não perdoava gols perdidos.
Rafael acabava de retornar para o Juventus, clube no qual havia sido revelado, para encerrar a sua carreira. A volta do jogador, que já fora eleito o melhor do mundo, atraiu muitos patrocínios, mercenários e sanguessugas ao pobre time que acabara de subir para a primeira divisão do campeonato brasileiro. No começo da temporada, Rafael marcou muitos gols na segundona do paulistão. Isso tornou cada vez mais concreto o sonho do milésimo gol. Mas no brasileiro a história era outra. Jogadores de diferentes patrocinadores, atraídos pela mídia que Rafael trazia consigo, garantiam sua posição no grito e no dinheiro. Muitos deles não se falavam nos vestiários. E era visível a desunião da equipe: certa vez, foi preciso até mesmo separar uma briga entre jogadores do mesmo time. A defesa era uma água, o meio não funcionava. Rafael e seu companheiro de ataque ficavam às moscas. A cada partida, o rebaixamento se tornava mais concreto e inevitável.
Contra a rival Portuguesa, o Juventus perdia de sete a zero. Rafael só precisava de mais um gol para alcançar o milésimo. Até que, então, o árbitro marca pênalti para o Juventus. As emissoras de TV passaram a transmitir o momento ao vivo. As torcidas dos dois times ficaram de pé e gritavam o nome de Rafael. Será que mais um jogador brasileiro se consagraria com o milésimo gol? Era o que todos esperavam. Seu parceiro de ataque trouxe a bola e entregou nas mãos de Rafael. Por um minuto o artilheiro pensou: se marcasse, eternizaria seu milésimo gol numa derrota histórica, num vexame; se perdesse, poderia fatalmente ser alvo do matador.
Com as mãos na cintura Rafael olhava nos olhos do goleiro tentando enxergar o futuro. Pensou, suspirou, sentiu o suor que escorria de sua cabeça raspada que escondia alguns cabelos brancos. Rafael partiu para a bola e chutou com toda a sua força. A bola passou alguns metros acima do gol e foi parar na torcida, que catatônica, não acreditava no que acabava de ver. Rafael decidiu que enfrentar a derrota seria pior do que morte, pois teria que aprender a conviver com ela.
Colocou as mãos na cabeça e fechou os olhos esperando pela picada fatal em seu peito. De repente, sente um empurrão. Policiais e jogadores se jogaram em cima dele para protegê-lo. Os câmeras e os fotógrafos varriam as arquibancadas e prédios com suas lentes de longo alcance. Depois de um tempo, Rafael se levantou. Nenhum sinal do atirador.
No dia seguinte, todos os jornais crucificaram Rafael que, segundo eles, não servia nem para fazer gol de honra. A imprensa passou a tratá-lo como um desonrado, responsável pela decadente campanha e pelo rebaixamento do Juventus. Mas o que nenhum jornal falou foi que, depois do dia do pênalti perdido por Rafael, nunca mais o matador voltou a agir. Perderam-se inúmeros gols e nenhum outro jogador foi abatido.
Em casa, aposentado e com a família, Rafael mandou enquadrar sua foto com as mãos na cabeça após perder o pênalti. Toda vez que olhava para ela, ele tinha a certeza de que ainda, em algum lugar, ainda lhe restava um fã.
agosto 27th, 2011 § § permalink
eu separava o lixo
hoje, já não tenho saco
está cada dia mais difícil
separar meu lixo
nunca me ensinaram o que é reciclagem
sem cinismo
quando eu separava o lixo
facilitava a vida de quem vive no lixão
hoje, tudo misturado
os urubus sempre chegam primeiro

agosto 17th, 2011 § § permalink
Ser pai é educar quando preciso e deseducar quando você menos se espera. É aprender com as crianças. Tudo aquilo que sua esposa reclama de você acaba refletindo no seu filho, e então, você tem que dar o braço a torcer. Mas isso tudo só torna as coisas ainda melhores.
Afinal, ser pai é bom demais. É ver que seus sonhos continuam vivos. Compreendo muito bem a opção de quem não quer ter filhos, mas confesso que acho estranha essa história de se preparar durante anos, ou uma vida inteira, para tê-los.
Quando meu segundo filho ia nascer, como todo pai, fiz a ilustre pergunta: e agora? Meu pai me disse algo que jamais esquecerei: você nunca terá tempo ou dinheiro suficiente para ter um filho. E essa é a mais cruel, irônica e divertida verdade que já ouvi. Não importa se você tem dinheiro para comprar um castelo para o seu filho, você vai querer dar um dragão a ele também. Se você tiver dinheiro para o dragão, vai querer dar tudo mais que existir no mundo da fantasia. Não tem fim… você vai fazer de tudo para que seu filho seja feliz para sempre.
O seu tempo também, nunca será o bastante. No início os filhos nos educam muito bem. Três meses de cólica é capaz de colocar qualquer um no eixo, ou enlouquecê-lo de vez. Acho que é nesse teste que muitos pais são reprovados. Mas quem passa por ele, percebe o quanto tudo isso que vale muito a pena.
Ser pai também é ter que responder perguntas incríveis e constrangedoras. Verdadeiras sinucas de bico.
São infinitos os porquês inspirados pela infância. E isso nos ensina a ver o mundo por outra ótica. Cá entre nós, uma ótica muito melhor. Sabe aquela velha história de dizer para os filhos que quem não estuda fica burro? Então… Falei isso pro meu filho. Certo dia, quando saíamos de casa no carro, eu, para o trabalho, minha esposa para a universidade onde faz mestrado e meu filho para sua escolinha, o pequeno me perguntou: Pai, por que só você é burro? Porque você não estuda? Você só trabalha, trabalha, trabalha…
Como responder a isso? Confesso que ri. Hoje faço faculdade de Filosofia que era o meu sonho há muitos anos. Costumo dizer às pessoas que antes de ter filhos eu não gostava de crianças, hoje, com dois filhos, brinco que não gosto de adultos. É, ser pai é mais do que foda, ser pai é duka.
julho 31st, 2011 § § permalink

Pelé dizia que o Reinaldo, famoso jogador dos tempos áureos do Atlético Mineiro, pensava um segundo antes dos zagueiros. Por isso, dava dribles desconcertantes em suas jogadas. Era temido por todas as defesas adversárias. Pelé dizia também, que ele mesmo, pensava três segundos antes dos zagueiros.
Tanto Pelé quanto Reinaldo tinham sorte de serem atacantes. Afinal, toda essa contagem só acontece quando a gente está com a bola no pé. Quando estamos na defesa e o atacante parte pra cima, ou quando a bola é chutada pro gol, nos sobram apenas frações de segundos para pensar. É como o fogo no pavio de uma dinamite. Na trajetória pro gol, a bola conta com toda tirania do tempo a seu favor. Se pararmos pra pensar, é gol.
Na vida não é muito diferente. É incrível como algumas ações podem mudar por completo o resultado do jogo. Beber ou não o último copo. Aceitar ou não o convite pra sair ou a proposta de emprego. Fazer ou não aquele curso. Ir ou não naquela festa. Muitas vezes precisamos pensar e agir rápido, senão, acabamos ficando parados vendo a bola passar.
julho 13th, 2011 § § permalink

- Perdão, meu senhor, mas não estou lhe reconhecendo.
- Senhor? Para com isso ou eu também te chamo de senhora. Apesar da careca e das rugas que eu tenho e você não tem, somos do mesmíssimo ano de 62.
- Meu Deus. Desculpe a franqueza, mas ou o senhor, quer dizer, ou você está muito acabado ou eu estou conservada demais.
- Por cavalheirismo, sou obrigado a ficar com a segunda hipótese. Sob protestos.
- Tá certo, agradeço. Agora, se me dá licença…
- Eu usava cabelo repartido e aparelho nos dentes.
- Sei, sei.
- Sentava na mesma fileira, 3 carteiras atrás de você. Professora Maria Luiza, antigo quarto ano primário. Ah, bala Soft de limão, isso não te lembra nada?
- Absolutamente. Porque, deveria?
- Não é possível, olha bem pra minha cara.
- Desculpa, sou péssima fisionomista. Ai, que situação chata, senhor, ou melhor, moço. Quarto ano primário… sei lá, José Alfredo?
- Tá frio, bem frio.
- Reynaldo?
- Ichi, chutou a bola pra fora do estádio.
- Dézão. Você é o Dézão!
- Nossa, esse era feio demais. Acabou comigo agora.
- Erivelton.
- O Jurema? O Erivelton Jurema? Tá querendo dinamitar minha autoestima. Na aula de Educação Física chamavam ele de Buda. Faça-me o favor… uma vez, estudando na sua casa pra prova de recuperação de matemática, você ficou passando o pé na minha canela debaixo da mesa. Tava um gelo naquela noite, você usava meia de lã toda listada, igual a das Frenéticas. Só não correspondi ao afago porque tinha na época um chulé insuportável. Outra dica: Carnaval de 81 e 82, eu fui de Barney nos dois anos…
- Ok, agora chega. Meu marido é aquele ali que tá buzinando, tenho que ir e acho que não é o caso de saber quem você é. Depois de tanto tempo, não vai fazer diferença mesmo.
- Espera aí, mas aquele lá no carro é o Marquinho Bereba. Vai dizer que você casou com aquele tranqueira?
- Bom, depois que levei o fora do Silvio, foi o ombro amigo dele que me valeu e me tirou da depressão. Fizemos bodas de prata no ano retrasado. Ah, mas chega de ficar dando satisfação da minha vida pra quem não devo. Até mais, senhor…
- Silvio.
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Marcelo Pirajá Sguassábia é redator publicitário e colunista em diversas publicações impressas e eletrônicas.
julho 7th, 2011 § § permalink
Cresci nas proximidades do Maracanã. Minhas lembranças da infância foram premiadas com as jogadas de Zico e do time do Flamengo dos anos 80. Uma das jogadas que sempre admirei no futebol é o chamado peixinho. Pra quem não conhece, o peixinho é quando o jogador se joga pra frente como um míssil, de cabeça na bola, sem medo de pé alto ou sarrafo de zagueiro. Normalmente, o resultado de um peixinho é bola na rede.
Um peixinho que ficou marcado na história foi o do atacante Almir Pernambuquinho, do Flamengo de 1966. Almir era um atacante da pá virada, madeira de dar em doido. Ele foi o primeiro bad boy do futebol brazuca. Disputava todas. Para ele, não existia bola perdida. Num jogo contra o Bangu, Almir deu um peixinho e o goleiro Ubirajara espalmou. A torcida já estava de pé comemorando o gol. Havia chovido muito e a área estava um lamaçal só. Caídos no chão, Almir e Ubirajara se entreolharam e viram a bola parada em uma poça d’água em frente à linha do gol.
Os dois saíram catando cavaco desesperadamente. Almir, mesmo em vantagem, percebeu que, se resolvesse se levantar para chutar a bola, o goleiro Ubirajara pularia e a alcançaria com as mãos antes dele. Não vacilou, pulou de cara na bola, na grama, na lama. Empurrou-a para dentro do gol com a cabeça. Foi pura raça, foi gol do Almir-Raça! Em seguida ele se levantou e mal dava para identificar o seu uniforme, que antes rubro-negro e agora estava marrom, coberto de lama. Com esse gol, o Flamengo venceu o Bangu por 2 a 1.
A foto de Almir no chão, com o rosto coberto de lama, cercado de pés e seguido pelo goleiro com os olhos arregalados virou capa de jornal. Chegou a ser capa da revista France Football. Foi o peixinho mais feio e o mais bonito até então. Não cheguei a ver o gol de Almir, mas, durante a minha vida, vi muitos peixinhos. De Zico, Bebeto, Renato Gaúcho e até de Junior Capacete, mas em sua época de Junior Maestro, no Flamengo de 1992. O tempo foi passando e o peixinho foi ficando cada vez mais raro. Hoje, não me lembro do último que vi.
Hoje eu olho para o jornalismo esportivo e me parece que, para não declarar a extinção do peixinho, muitos jornalistas consideram algumas cabeçadas, onde o jogador apenas cai no chão, como peixinho. Mas nada se compara aos peixinhos dos velhos tempos. Hoje parece que há mais dinheiro do que futebol em jogo. Já imaginou um milionário rolar na lama? Jamais.
Enquanto isso, continuo torcendo de teimoso. Vejo muitas vezes os craques milionários esticarem os pés só pra cumprir tabela, fazer de conta que tentaram. Afinal, todo torcedor sabe lá no fundo que só com um peixinho ele alcançaria aquela bola.
Curiosamente, no fim da carreira, Almir ficou conhecido por denunciar as falcatruas do dinheiro no futebol. Num lance infeliz, o bad boy da Gávea encontrou seu fim no calçadão da Avenida Atlântica em 1973, quando foi defender atores do grupo Dzi Croquetes que estavam sendo ameaçado por um grupo de portugueses homofóbicos. Um dos portugueses sacou um revólver e atirou no mais corajoso atacante que o futebol brasileiro já conheceu. Almir morreu na hora. O crime nunca foi esclarecido pelas autoridades. Os portugueses sumiram, e o grupo Dzi Croquetes não existe mais. Só o que ficou foram as saudades de Almir Pernambuquinho e do peixinho.
(Almir no centro, Silva na direita da foto. Uma das melhores duplas de ataque que o Flamengo já teve.)