Jamie Oliver vs McDonalds e o hidróxido de amônio

fevereiro 1st, 2012 § 0 comments § permalink

Quando mostrei a foto e a matéria abaixo pra minha filha de 8 anos, ela disse: Pai, isso é invenção das pessoas“. Ou seja, nossas crianças já estão acreditando mais no McDonalds do que em nós mesmos.

Se você der um Google vai ver que a notícia teve mais eco nas redes sociais do que na grande mídia, o que explica muito toda essa confiança conquistada pela rede de fast-fútil.

A notícia já foi verificada e a empresa disse que vai mudar sua receita nos EUA, mas e o Brasil? Já que o Jamie Oliver comprou a briga lá na gringa, bem que a Ana Maria podia fazer o mesmo no Brasil. Difícil né?

Parece que, por aqui, quem acredita no McDonalds vai continuar comendo sobras de carne. Veja mais detalhes abaixo.

(roubei do Facebook)

Após o chefe de cozinha e ativista Jamie Oliver descobrir – e divulgar em seu programa de TV – que a rede McDonald’s utiliza hidróxido de amônio para converter sobras de carne gordurosas em recheio para seus hambúrgueres nos Estados Unidos, a marca anunciou que mudará a receita, segundo informações do jornal Mail Online. “Estamos comendo um produto que deveria ser vendido como a carne mais barata para cachorros e, após esse processo, dão o produto para humanos“, disse Oliver. “Por que qualquer ser humano sensato colocaria carne com amônio na boca de suas crianças?“, questiona.

O QUE É HIDRÓXIDO DE AMÔNIO?

O hidróxido de amônio, de fórmula química NH4OH é uma base solúvel e fraca, só existe em solução aquosa quando faz-se o borbulhamento de amônia (NH3) em água.

Hidróxido de Amônio não é considerado cancerígeno pela OSHA.

Resumo de riscos: Nocivo quando ingerido, inalado e absorvido pela pele. Extremamente irritante para mucosas, sistema respiratório superior, olhos e pele.

Efeitos agudos: A inalação pode causar dificuldades na vítima como consequência: espasmos, inflamação e edema de garganta, pneumonia química e edema pulmonar.

Efeitos crônicos: A exposição repetida ao produto pode causar tosse, respiração ruidosa e ofegante, laringite, dor de cabeça, náusea, vômito e dor abdominal.

Órgãos afetados: Estômago e pulmões.

Parabéns São Paulo!

janeiro 25th, 2012 § 0 comments § permalink

Hoje é aniversário de São Paulo. Depois de cantar os parabéns, vamos fazer um minuto de silêncio e refletir sobre os nossos desejos para o futuro.

Eu S2 SP from Thiago Carrapatoso on Vimeo.

Comunicado do Pirate Bay sobre o SOPA

janeiro 20th, 2012 § 0 comments § permalink

O texto pode parecer longo, mas quando você começar a ler não vai conseguir mais parar. É uma lição de história que você não vai aprender em nenhuma corporação ou faculdade que “prepare”para o mercado do trabalho.
(arte by @victornamba – distribuição e divulgação livre – clique na imagem para baixá-la em alta)

INTERNET, 18 de Janeiro de 2012.
COMUNICADO PARA LANÇAMENTO IMEDIATO.

Há mais de um século, Thomas Edison conseguiu a patente de um dispositivo que faria “para os olhos o que o fonógrafo faz para os ouvidos”. Ele chamou de Kinetoscópio. Ele não foi apenas o primeiro a gravar seu primeiro vídeo como foi também o primeiro a ter o direito autoral de um estúdio cinematográfico.

Na época, o direito de patente de Edison tornou financeiramente impossível produzir um filme na região leste norte-americana. Assim, os estúdios cinematográficos migraram para a Califórnia, onde criaram o que chamam hoje de Hollywood. O motivo principal dessa mudança era basicamente a ausência de patente naquela região.

Além disso, não se falava de direitos autorais, assim, os estúdio criavam filmes copiando histórias antigas, como por exemplo Fantasia, um dos maiores sucessos da Disney.

Então, a função dessa indústria, que hoje está desesperada, pois está perdendo o controle dos direitos imateriais, é contornar esses direitos. Eles copiam (ou nas palavras deles: “roubam”) os trabalhos criativos das pessoas e não pagam nada por isso. Fazem isso para obter um lucro enorme. Hoje, todos são bem sucedidos e a maioria dos estúdio então na lista das empresas mais ricas do mundo no “Fortune 500”. Parabéns – esse sucesso foi atingido por, basicamente, ter copiado o trabalho criativo alheio. E ainda por cima, hoje eles possuem o direto de todo o trabalho copiado. Se você quiser lançar algo hoje, precisa respeitar suas regras. As mesmas que eles criaram depois de terem contornado as regras das outras pessoas.

O motivo deles sempre reclamarem sobre os “piratas” é simples. Nós estamos fazendo exatamente o que eles fizeram. Nós contornamos as regras que eles criaram e criamos as nossas. Nós acabamos com o monopólio deles oferecendo às pessoas algo mais eficiente. Nós possibilitamos a comunicação direta entre as pessoas contornando o intermediário, que em alguns casos ficam com mais de 107% dos lucros (sim, você paga para trabalhar para eles). O que acontece, é que somos concorrentes. Nós provamos que a existência deles na forma atual não é mais necessária. Somos melhores do que eles.

O mais engraçado é que parte das nossas regras é bastante similar as idéias fundamentais dos EUA. Nós lutamos pela liberdade de expressão. Nós consideramos que todos são iguais. Acreditamos que o público tinha que administrar a nação e não a elite. Acreditamos que as regras tinham que ser criadas para servir o público e não as ricas corporações.

A Pirate Bay é uma comunidade verdadeiramente internacional. Nosso time está espalhado por todo o mundo – porém estamos fora dos EUA. Nossas raízes são suecas. Um amigo sueco nosso disse uma vez: “A palavra SOPA significa “lixo” em sueco. A palavra PIPA significa “cano”. Isso com certeza não é coincidência. Eles querem que a internet seja um cano de um sentido só, com eles no comando, sempre jogando lixo sobre nós consumidores obedientes. A opinião pública neste caso é clara. Pergunte a qualquer um e você verá que ninguém quer ser alimentado com lixo. O porquê do governo americano querer alimentar o povo com lixo é além da nossa imaginação, mas nós esperamos que você o detenha, antes que todos nós afundemos.

Não há nada que o SOPA possa fazer para tirar o TPB do ar. Na pior das hipóses nós mudaremos o domínio principal do .org para outras centenas de nomes que já estão em uso. Nos países onde o TPB foi bloqueado como China, Arábia Saudita entre outros, eles bloquearam centenas de nossos domínios. E funcionou? Não. Para acabar com o “problema de pirataria” deve-se ir na raíz do problema. A indústria de entrenenimento diz que estão gerando “cultura” mas na verdade eles estão vendendo bonecas de pelúcia a um preço absurdo e transformando meninas de 11 anos em anoréxicas, seja por trabalharem em fábricas que criam essas bonecas, sem salário algum ou por assistirem programas de TV e fazendo com que elas pensem que são obesas.

No jogo de computador Civilization criado por Sid Meiers é possível construir algumas das maravilhas do mundo. Uma das mais poderosas é Hollywood. Com isso você consegue controlar toda a cultura e a mídia do mundo. Rupert Murdoch estava contente com o MySpace e não via problema algum com a pirataria até sua estratégia falhou. Hoje ele fala que o Google é a maior fonte de pirataria do mundo – porque ele tem inveja. Ele queria reter e controlar as mentes das pessoas. Afinal, está claro que você consegue uma visão mais honesta das coisas no Wikipedia ou Google do que na Fox News.

Alguns fatos (anos, datas) deste comunicado podem estar errados. Isso porque não podemos acessar mais informações enquanto o Wikipedia estiver fora do ar. E tudo isso por causa da pressão de nossos competidores decadentes. Nós sentimos muito.

THE PIRATE BAY, (K)2012

Tradução por: Lucas Bittar – @lucasbittar
Fonte: http://static.thepiratebay.org/legal/sopa.txt

O que a Operação Blackout anti-SOPA mudou?

janeiro 19th, 2012 § 0 comments § permalink

O que é o SOPA (Stop Online Piracy Act) e porque ele é tão perigoso.

janeiro 19th, 2012 § 0 comments § permalink

Esta entrevista onde o Sérgio Amadeu@samadeu explica melhor o que é o SOPA teve mais de 121 mil acessos no site SoLAr – Software Libre Argentina.

Parece que o assunto está mesmo mexendo com a internet e o pessoal, aos poucos, está acordando.

Segue a entrevista:

Qual é o conteúdo desse projeto de lei? Por que é tão polêmico?

[ Sérgio Amadeu ] O SOPA, apresentado em outubro de 2011 na Câmara dos Deputados dos EUA,  é praticamente um complemento do Protect IP Act (PIPA), apresentado quatro meses antes no Senado norte-americano. As duas propostas legislativas visam bloquear o acesso a sites e aplicações na Internet que sejam consideradas violadoras da propriedade intelectual norte-americana. A indústria do copyright percebeu que os principais buscadores, provedores de conteúdo e redes sociais online estão sediadas nos EUA. Por isso, acreditam conseguir no ciberespaço algo semelhante ao bem sucedido bloqueio econômico à Cuba.

Na prática, o que acontecerá se ela for aprovada?

[ Amadeu ] Nenhuma empresa sediada nos EUA poderá permitir o acesso a um número de IP (ou seja, do protocolo de internet) ou a um domínio de um site acusado de “roubar” imagem, vídeo, música, texto ou software de cidadãos ou corporações norte-americanas, sob pena de ser considerado um verdadeiro cúmplice. Mais do que aplicar a técnica chinesa do bloqueio aos endereços dos sites, a lei exige que, em cinco dias, todas as referências a estes sites sejam apagadas. Isto quer dizer que se meu blog for acusado de violar o copyright de algum americano, o Google e o Yahoo serão obrigados a deletar todas as referências a ele. Também a Wikipedia deverá suprimir todos os links que teriam para o meu blog, mesmo que os enlaces tratassem de outro tema.

Além disso, são completamente impeditivos os custos para se recorrer na Justiça norte-americana dessa ação de bloqueio administrativo. O pior é que os dois projetos de lei visam controlar a criatividade e a inovação também na área de aplicações na rede. Imagine se a Microsoft acusar o WordPress de violar determinadas patentes de software (que são aceitas nos EUA). Como ficarão os blogs que usam a plataforma wordpress em todo o planeta? Certamente terão seus IPs bloqueados em solo americano e os mecanismos de busca deverão suprimir qualquer link que os indique.

Qual o impacto disso para a rede como um todo?

[ Amadeu ] Se o SOPA e o PIPA forem aprovados, será a primeira grande derrota da cultura da liberdade diante da cultura da permissão e do vigilantismo. Será um grande retrocesso para a criatividade e para a inovação da comunicação em rede. A Internet poderá ser afetada nos seu sistema de DNS (sistema de nomes de domínio) e isto poderá alterar profundamente a sua dinâmica. Por isso, enquanto lutamos contra os traficantes do copyright, temos que utilizar a estratégia das comunidades de software livre. É preciso pensar e construir também novas tecnologias de rede que possam anular a truculência do Estado norte-americano. Resistir, mobilizar, denunciar, sem esquecermos que, talvez, o decisivo seja hackear. E vale lembrar que hackear é hipertrofiar. Borrar as fronteiras dos inimigos da liberdade. Elevar ao extremo seus absurdos. Não têm nada a ver com crackear, roubar e invadir. Um exemplo é o plano para lançar o primeiro satélite hacker (leia mais https://twitter.com/#!/samadeu/status/153940138530062336  ).

Quais são os interesses por trás da lei?

[ Amadeu ] Esta medida é defendida por membros do Partido Republicano e do Partido Democratas que querem subordinar todos os direitos sociais e culturais ao enrijecimento e extensão da propriedade intelectual. São lobistas de associações como a MPAA (indústria cinematográfica), RIAA (indústria fonográfica), BSA (Business Software Aliance) que articulam deputados e senadores para apoiar tais medidas que são consideradas anti-constitucionais por diversos analistas. Todavia, os deputados defensores do SOPA e do PIPA defendem que tais medidas não se aplicam em território americano, são para bloquear sites fora de sua jurisdição, portanto, não fere a Constituição. Por trás dessas propostas está a certeza de que não adianta atuar contra o usuário da Internet, pois esse não acredita que compartilhar música, textos e vídeos seja uma atividade criminosa. Por isso, querem atuar na própria infraestrutura de conexão e de provimento de acesso da rede.

Há reação dos movimentos sociais?

[ Amadeu ] Há uma grande reação nos EUA contra o SOPA e o Protect IP Act. O principal articulador da luta contra o bloqueio da Internet é a Electronic Frontier Foundation. Ativistas do mundo inteiro se mobilizam contra essas medidas. Organizações sem fins lucrativos, tais como a Wikipedia e a Mozilla Foundation se mobilizam igualmente junto com corporações como o Google e o Yahoo. No Brasil, os ativistas da liberdade na Internet que lutam contra o AI-5 Digital se mobilizam desde o ano passado para denunciar o SOPA. Diversos blogueiros também têm denunciado essas investidas que visam censurar e bloquear a rede. Existe até um aplicativo para celulares Android (veja) que permite o usuário identificar as empresas que apóiam o SOPA, conforme tenho relatado no Twitter ( http://twitter.com/samadeu ).

#OpBlackout

janeiro 18th, 2012 § 0 comments § permalink

Texto via Tecmundo

Para quem não sabe, SOPA significa Stop Online Piracy Act (Decreto pela Paralisação da Pirataria Online). Trata-se de uma comissão de apoio a uma nova lei que pode vir a ser aprovada nos Estados Unidos, visando fechar o cerco contra a pirataria.

O problema é que os termos da lei dão margens para muitas interpretações, sendo que os autores da lei pedem, inclusive, o poder de tirar sites do ar. Outro termo bastante controverso é a responsabilização dos serviços por quebra de direitos autorais por parte dos usuários. Por exemplo: se você postar um link de pirataria no Facebook, a culpa será da rede social.

Como forma de protesto contra a lei, vários sites estão planejando um blackout na internet para o próximo dia 18 (quarta-feira). Isso significa que diversas páginas podem desligar seus servidores e interromper completamente a disponibilização de suas páginas.

Alguns sites já confirmaram a paralização. O Reddit afirmou que no dia 18 deixará apenas uma mensagem na página inicial, revelando aos leitores por quais motivos a SOPA pode acabar com o serviço. Há grandes chances de a Wikipédia seguir o mesmo caminho e desativar os servidores na data marcada.

Outros sites que estariam interessados em aderir ao blackout seriam as redes sociais Facebook e Twitter, que contam com milhões de participantes e não querem que as ações deles sejam motivo para processos judiciais por direitos autorais. Até mesmo o Google está na lista de prováveis paralisadores.

Leia mais em: http://www.tecmundo.com.br/pirataria/17827-18-de-janeiro-o-dia-em-que-a-internet-vai-parar.htm#ixzz1jfJ7CQBz

Desabafo de quem tava lá. Reintegração de Posse na USP

novembro 9th, 2011 § 0 comments § permalink

encontrei esse texto no Facebook da Shayene Metri.

Cheguei na USP às 3h da manhã, com um amigo da sala. Ia começar o nosso ‘plantão’ do Jornal do Campus. Outros dois amigos já estavam lá. A ideia era passar a madrugada lá na reitoria, ou pelas redondezas. 1) para entender melhor a ocupação, conhecer e poder escrever melhor sobre isso tudo. 2) para estarmos lá caso a PM realmente aparecesse para dar um fim à ocupação.

Conversa vai, conversa vem. O tempo da madrugava passava enquanto ficávamos lá fora, na frente da reitoria, conversando com alunos da ocupação. Alguns com posicionamentos bem definidos (ou inflexíveis), outros duvidando até das próprias atitudes. A questão é: os alunos estavam lá e queriam chamar atenção para a causa (ou as causas, ou nenhuma causa)…e, por enquanto, era só. Não havia nada quebrado, depredado ou destruído dentro da tão requisitada reitoria (a única marca deles eram as pixações). A ocupação era organizada, eles estavam divididos em vários núcleos e tinham medidas pra preservar o ambiente. Aliás, nada de Molotov.

Mais conversa foi jogada fora, a fogueira que aquecia se apagou várias vezes e eu levantei a pergunta pra alguns deles: e se a PM realmente aparecesse lá logo mais? Seria um tiro no pé dela? Ela sairia como herói? Os poucos que conversavam comigo (eram uns 4, além dos amigos da minha sala) ficaram divididos. “Do jeito que a mídia está passando as coisas, eles vão sair como heróis de novo”, disse um. “Se ele vierem vai ter confronto e isso já vai ser um tiro no pé deles”, disse outra. Mas, numa coisa eles concordavam: poucos acreditavam que a PM realmente ia aparecer.

Eu achava que a PM ia aparecer e muito provavelmente isso que me fez ficar acordada lá. Não demorou muito e, pronto, muita coisa apareceu. A partir daí, meu relato pode ficar confuso, acho que ainda não vou conseguir organizar tudo que eu vi hoje, 08 de novembro.

Muitos PMs chegaram, saindo de carros, motos, ônibus, caminhões. Apareceram helicópteros e cavalaria. Nem eu e, acredito, nem a maior parte dos presentes já tinham visto tanto policial em ação. Estávamos em 5 pessoas na frente da reitoria. Dois estudantes que faziam parte da ocupação, eu e mais 2 amigos da minha sala, que também estavam lá por causa do JC. Assim que a PM chegou, tudo foi muito rápido:

os alunos da ocupação que estavam com a gente sugeriram: “Corram!”, enquanto voltavam para dentro da reitoria. Os dois amigos que estavam comigo correram para longe da Reitoria, onde a imprensa ainda estava se posicionando para o show. Eu, sabe-se lá por qual motivo, joguei a minha bolsa para um dos meninos da minha sala e voltei correndo para frente da reitoria, no meio dos policiais que avançavam para o Portão principal [e único] da ocupação.

Tentei tirar fotos e gravar vídeos de uma PM que estava sendo violenta com o nada, para nada. Os policiais quebravam as cadeiras no carrinho, faziam questão do barulho, da demonstração da força. Os crafts com avisos dos estudantes, frases e poemas eram rasgados, uma éspecie de símbolo. Enquanto tudo isso acontecia, parte da PM impedia a imprensa de chegar perto da área, impedindo que os repórteres vissem tudo isso. Voltando para confusão onde eu tinha me enfiado: os PMs arrombaram a porta principal, entraram (um grupo de mais ou menos 30, eu acho) e, logo em seguida, fecharam o portão. Trancaram-se dentro da reitoria com os alunos. Coisa boa não era.

Depois disso, o outro grupo de PMs,que impedia a mídia de se aproximar dessas cenas que eu contei , foi abrindo espaço. Quer dizer, não só abrindo espaço, mas também começando (ou fortalecendo) uma boa camaradagem para os repórteres que lá estavam atrás de cenas fortes e certezas.

“Me sigam para cá que vai acontecer um negócio bom pra filmar ali agora”, disse um dos militares para a enxurrada de “jornalistas”.

A cena era um terceiro grupo de PMs, arrombando um segunda porta da reitoria, sob a desculpa de que queria entrar. O repórter da Globo me perguntou (fui pra perto deles depois da confusão em que me meti com os policiais no início): “os PMs já entraram, não? Por que eles tão tentando por aqui também?”. Respondi: “sim, já entraram. E provavelmente estão fazendo essa cena pra vocês terem algum espetáculo pra filmar” 

A palhaçada organizada pelos policiais e alimentada pelos repórteres que lá estavam continuou por algumas horas. A imprensa ia contornando a reitoria, na esperança de alguma cena forte. Enquanto isso, PM e alunos estavam juntos, dentro da Reitoria, sem ninguém de fora poder ver ou ouvir o que se passava por lá. Quem tentasse entrar ou enxergar algo que se passava lá na Reitoria, dava de cara com os escudos da tropa de choque, até o fim.

Enquanto amanhecia, universitários a favor da ocupação, ou contra a PM ou simplesmente contra toda a violência que estava escancarada iam chegando. Os alunos pediam para entrar na reitoria. Eu pedia para entrar na reitoria. Tudo que todo mundo queria era saber o que realmente estava acontecendo lá dentro. A PM não levava os estudantes da ocupação para fora e o pedido de todo mundo era “queremos algo às claras”. Por que ninguém pode entrar? Por que ninguém pode sair?

Enquanto os alunos que estavam do lado de fora clamavam para entrar, ouvi de um grupo de repórteres (entre eles, SBT): “Não vamos filmar essas baboseiras dos maconheiros não! O que eles pedem não merece aparecer”. Entre risadas, pra não perder o bom humor. Além dos repórteres que já haviam decidido o que era verdade ou não, noticiável ou não, tinham pessoas misturadas a eles, gritando contra os estudantes, xingando. Eu mesma ouvi muitas e boas como “maconheirazinha”, “raça de merda” e “marginal” . 

Os estudantes que enfrentavam de verdade os policiais que faziam a ‘corrente’ em torno da Reitoria eram levados para dentro. Em questões de segundos, um estudante sumia da minha frente e era levado pra dentro do cerco. Para sabe-se lá o que.

Lá pras 7h30, depois de muito choro, puxões e algumas escudadas na cara, comecei a ver que os PMs estavam levando os estudantes da ocupação para dentro dos ônibus. Uma menina foi levada de maneira truculenta, essa foi a única coisa que meu 1,60m de altura conseguiu ver por trás de uma corrente da tropa de choque. Enquanto eu tentava entrar no cerco, para entender a história, a grande mídia já estava lá dentro. Fui conversar com um militar, explicar da JC. Ouvi em troca “ai, é um jornal da usp. De estudantes, não pode. Complica”.

Os ônibus com os alunos presos saíram da USP. Uma quantidade imensa de outros alunos gritavam com a PM. Eu e os dois amigos da minha sala (aqueles da madrugada) pegamos o carro e fomos para a DP.

Na DP, o sistema era o mesmo e meu cansaço e raiva só estavam maiores. Enjoo e dor de cabeça, era o meu corpo reagindo a tudo que eu vi pela manhã. Alunos saiam de 5 em 5 do ônibus para dentro da DP. Jornalistas amontoados. Familiares chegando. Alunos presos no ônibus, sem água, sem banheiro, sem comida, mas com calor. Pelo menos por umas 3h foi assim.

Enquanto a ficha caia e eu revisualizava todo o horror da reintegração de posse, outras pessoas da minha sala mandavam mensagens para gente, de como a grande imprensa estava cobrindo o caso. Um ato pacífico, né Globo? Não foi bem isso o que eu vi, nem o que o JC viu, nem o que centenas de estudantes presenciaram.

Enfim, sou contra a ocupação. Sempre tive várias críticas ao Movimento Estudantil desde que entrei na USP. Nunca aceitei a partidarização do ME. Me decepciono com a falta de propostas efetivas e com as discussões ultrapassadas da maioria das assembléias. Mas, nada, nada mesmo, justifica o que ocorreu hoje. Nada pode ser explicação pra violência gratuita, pro abuso do poder e, principalmente, pela desumanização da PM.

Não costumo me envolver com discussões do ME, divulgar textos ou participar ativamente de algo político do meio universitário. Mas, como poucos realmente sabem o que aconteceu hoje (e eu acredito que muita coisa vai ser distorcida a partir de agora, por todos os lados), achei que valeria a pena escrever esse texto. Taí o que eu vi.

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