No Canadá, clube de futebol anarquista leva o esporte além de vencer e perder .
Dando um cartão vermelho para a hegemonia.
Nas noites de quarta, no canto nordeste do Parc Notre Dame de Grace, encravado entre Cote St. Antoine e Girouard, logo ao norte da corrida canina, Alex Megelas espera pacientemente em um tufo de grama por seguidores (leia-se entusiastas) do que ele chama seu Anarquista Futebol Clube.
Através de uma versão não-hierárquica particular de futebol, o clube almeja combater as práticas discriminatórias que freqüentemente fazem parte dos esportes organizados como o sexismo, a homofobia e o machismo.
Essencialmente, o Anarquista Futebol Clube erradicou a hierarquia que normalmente existe nos esportes organizados ao despojar o jogo de suas regras tradicionais. Isso significa sem contagem de placar, limites, capitães, e sem as mãos. Qualquer coisa e qualquer um são permitidos, exceto comportamentos agressivos e más atitudes.
Os times são escolhidos usando um sistema de números (1, 2, 1, 2,) e tendem a ser bem flexíveis. Jogadores buscam por pessoas que não estão em seus times, e por conta de as pausas para descanso/socialização serem freqüentes, os times tendem a mudar e modificar ao longo da noite.
Embora isso possa parecer apenas diversão, o Anarquista Futebol Clube é atribuído a um conjunto específico de valores. Por utilizar o termo altamente conotativo anarquista, o clube politizou o futebol, em reação à discriminação que havia nos esportes, e nos sentimentos divisores que os esportes organizados possam fomentar.
Com isso em mente, pessoas aderem ao clube Anarquista porque é um espaço onde sabem que se sentirão seguros e compreendidos. Mais importante, é um espaço onde eles podem realmente interagir e curtir o futebol sem ter que se preocupar com a desigualdade.
“Eu venho porque é divertido e o pessoal é amigável”, diz Ovidiu, de 17 anos, que está participando do clube há apenas duas semanas. “É mais divertido que jogar com pessoas que levam a sério, e é melhor que ter que pagar para jogar.”
O grupo de Ovidiu inclui dois outros garotos adolescentes e um menino de oito anos, o irmão mais novo de um dos amigos de Ovidiu. Parte da abertura do programa inclui aceitar grupos de todas as idades. Nas noites de quarta, é perfeitamente normal ver pessoas de 15 anos jogando com pessoas de 50 anos.
Alguns participantes nem mesmo gostam de futebol. De acordo com Layla AbdelRahim, uma auto-proclamada anarquista, esportes organizados são restritivos e violentos, limitando o potencial do corpo de desfrutar outros tipos de alegrias. AbdelRahim assiste ao Anarquista Futebol Clube relaxadamente, enquanto abraça de todo o coração a desordem implícita do programa. Ela irá fazer com que sua jovem filha corra por lá e construa relações com pessoas que ela descreve como “explodindo de boa energia e caos”.
A questão é: os esportes tem o potencial de trazer grupos diferentes a uma harmonia? Megelas e sua equipe acham que não. A Copa do Mundo é um espetáculo; as Olimpíadas são um negócio capitalista. Eventos esportivos internacionais não são capazes de fazer uma ponte entre diferenças significantes.
Entretanto, na comunidade local, o Anarquista Futebol Clube prova que paz, amor e compreensão podem se integrar ao futebol como aquela pequena pelota preta e branca. Você já ouviu isso: “O importante não é ganhar ou perder, é se divertir!”
Fonte: The McGill Daily
Tradução: Felipe Ferrari
