por Sandro Filetti
Eis o pensamento cristão:
Deus fez tudo! A morte, a vida, as dores e o mal. Ele é Todo-Poderoso, Onipotente, Onisciente, etc. Esse mesmo Deus, em sua imensa sabedoria, coloca o homem em uma sinuca de bico, ou seja, você vai nascer, vai pecar, vai morrer e terá que ser salvar da perdição eterna. Não há como fugir disto, pois o mundo foi e é moldado conforme o pensamento de Deus.
Lá, antes da criação do mundo, ele sabe que Lúcifer vai se voltar contra ele, e sabe que o homem vai pecar e se voltará contra o Criador, e teremos uma história se arrastado sempre para as duras prestações de contas com ele, ou o Juízo Final (que pelo visto este Juízo já esta atrasadíssimo!). Nesta solene ocasião, Deus irá matar a metade (ou mais da metade) da humanidade para salvar um pequeno grupo que o aceitou (que por sinal, são aqueles que acreditam na Bíblia, ou aceitaram Jesus e o Cristianismo em suas vidas).
Que faz este Deus? Bom, não tendo outra coisa melhor para fazer no Paraíso (pois ficar de nuvem em nuvem eternamente deve realmente ser algo muito chato), ele aperta o um botão e começa o grande jogo da vida.
Antes disso, teve alguns problemas domésticos em seu paraíso e acabou não se entendendo com Lúcifer. Vou mandá-lo para a Terra! Ora, Lúcifer não vai mudar de idéia mesmo, que fique por lá enchendo as paciências dos humanos, pois no fim vou matá-lo mesmo, é só uma questão de tempo.
Ora, não foi capaz, este Deus, de colocar ordem em sua própria casa, e ainda quis criar um mundo. Veja!
Depois disto o que ele faz? Cria o mundo, o homem e a mulher. Tudo muito bom, bonito e perfeito. Perfeito? Este Deus diz: olha gente comam tudo menos disso viu! O que poderia acontecer, a serpente mais inteligente que o próprio Deus (que ele mesmo criou) estraga os planos e convence ao nosso primeiro casal que a fruta é boa. O que acontece? Comem da fruta e Deus castiga o homem com o trabalho e a mulher com o parto.
Livre arbítrio! Que nada! Dá liberdade o mesmo tempo que cria meios para cutucar a liberdade. Dá um tapinha e depois assopra. Que é isto? Que visão de Deus absurda e monstruosa!
Bom, continuemos.
O sábio Deus cria mais gente no mundo, e mesmo sabendo que esse povo ia tomar um rumo próprio em suas vidas (livre arbítrio) o que ele faz? Arrepende-se e mata todo mundo afogado, salvando apenas um grupinho muito seleto numa arca que abriga todo o gênero de vida do planeta. (A arca deveria de um tamanho colossal, bom, isto é outra história).
Tudo de novo, começa quase do zero. Bom errar é humano não é (caramba, mas Deus erra?).
De todo o mundo ele escolhe um grupo (que no final da história não irá aceitar o projeto proposto por ele mesmo, pois não aceitou seu “filho”, Jesus). Grupinho difícil, brigas e mais brigas, discussões, traições, etc. Qual é a solução de Deus para isto? Morte pra lá, lepra pra cá, apedrejamento de um lado, etc., etc. Bom, não esta funcionando, o que fazer?
Certamente este Deus fica preocupado, o vejo até deprimido, como num divã a procura da solução.
Num dado momento ele acha a resposta. Já sei o que fazer, vou me dividir em três e eu mesmo (ou uma das minhas partes) irá falar com este povo para ver se tomam algum rumo. (Que coisa estranha, um Deus, três Deuses, um em três, três em um, bom deixemos pra depois isto.).
Lembrando: o trabalho e o parto são castigos de Deus aos homens.
Pois bem, Deus esquecendo-se ou ignorando o fato, nasce como qualquer outro homem, utilizando-se do castigo que ele mesmo fez. E o pior, seu pai e ele trabalham (suponho que Cristo também ajudava a José, e não ficava pelas esquinas da casa sem fazer nada). Bom, que José trabalhe é uma coisa, mas Jesus? Ele não pecou. Bom, deixa pra lá também.
O que faz este Deus Jesus. Ora para ele mesmo, pede pra ele mesmo representado um papel de Filho e de Pai, ora não seria Deus e Jesus apenas uma só pessoa? Bom, representou bem, mais não foi nada inteligente, pois deixou que outros escrevessem seus ensinamentos bem depois da sua morte. Pelo menos algumas linhas ele poderia deixar para evitar tanta confusão no futuro.
Sendo o mesmo Deus que criou o homem, não se poderia esperar outra coisa senão que tudo desse errado novamente. Suas criaturas o matam, e anos mais tarde seus ensinamentos se transformam em motivações para o que há de pior no ser humano: ódio, a cobiça, assassinatos, etc.
Tudo deu errado de novo.
O que fazer? A quem culpar? Ah! Sim, o diabo. Era um anjo menor do que Deus, mas é capaz de jogar quase todo mundo contra ele (só os que acreditam na Bíblia que não). Além de danado, é esperto o bichano.
Continuando.
Bom, Deus estabelece uma Igreja ou um Líder de seu grupo (Pedro!)
Só que este líder morre, e seguindo o exemplo de Jesus, o grupo de escolhidos sempre elege o seu novo líder. (Vale lembrar que os escolhidos são escolhidos dos escolhidos dos discípulos)
A igreja primitiva é confusa.
Alguns guardam o sábado, outros não.
Alguns praticam a circuncisão, outros não.
Alguns acham que Jesus não existiu fisicamente, apenas era um fantasma materializado, outros não.
Uns pensam que ele era Deus, outros não.
E por aí vai, tudo de novo se estragando. Caracoles? Não daria para fazer algo menos confuso!
Pois bem, as pequenas comunidades cristãs têm sua liderança local, e cada um vive sua espiritualidade conforme o seu meio (nada mais adequado e coerente). Um dia, um Imperador Romano decide aplicar um ISO 9000x na espiritualidade de seu decadente e dividido Império (este sim foi inteligente, viu que se todos aceitarem a mesma fé poderia ter um controle melhor sobre a massa, pois deveriam obedecer as suas ordens como alguém que governa baixo a vontade de Deus).
Quem tinha uma visão não oficial era herege e pronto! Volta a matança do Velho Testamento até o fim da Idade Média, ou até hoje, sei lá!
Num dado momento, começa a se discordar do Catolicismo (que começou historicamente lá com o Pedro) e pipocam pretensas igrejas de Cristo por todo lado. De novo o negócio não vai bem.
O que fazer? Bom, o melhor e começar do zero de novo. Pensa Deus em fazer o seguinte, vamos limpar a Terra e salvar apenas aqueles que concordam comigo (o que ele esqueceu é que no céu todo mundo concordava com ele até que Lúcifer meteu o pé no balde).
Vai dar certo?
Eis o fiasco do Plano de Salvação Cristão.
Cria o pecador e o pecado.
Cria o livre arbítrio e a tentação com o objetivo de cairmos nela para sermos perdoados.
Cria o diabo para espetar o povo que já é castigado pelos sofrimentos e enfermidades, que ele mesmo criou dando livre arbítrio ao homem, que cairia em tentação pelo mal que ele mesmo criou, criando o diabo.
Quando algo dá errado, a solução é uma limpeza “étnica”.
Isto não um plano, definitivamente!
Ora, muitos de nós temos algumas propostas para Deus.
a)Bom deixe as doenças e pragas, mas tire o diabo, foi você quem o fez, é problema seu, de um jeito!
b)Manda Jesus de novo (mais “alfabetizado”) e que ele escreva de forma clara e precisa qual é a vontade do Pai então, e de quebra, diga qual é a religião verdadeira, (se é que existe!)
c)Dá uma chance pra quem não pode conhecer a Jesus, mande o povo de volta à Terra (Tirando-os lá do inferno) e que nasçam em culturas ou famílias cristãs (excluindo o oriente, os ateus, os espíritas, etc., estes não têm chance mesmo), sem tirar é claro o livre arbítrio de cada um. Se eles aceitarem bem, se não pode queimar a todos no mármore do inferno! Vamos lá, isto não seria mais justo?
Pois bem, se este suposto plano tem lógica, por favor, apresente-a!
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Se me permite dar minha modesta opinião, acredito que ateus e crestes em Deus devem pensar um pouco antes de continuar essa disputa ideológica.
A diferença básica entre essas pessoas é que o religioso acredita na manifestação literal das escrituras. Já os ateus mais céticos não aceitam as escrituras sagradas como verdade por julgar impossível tais realizações ‘mágicas’.
Acredito que ridicularizar uma ou outra forma de pensamento não é o caminho. Podemos pensar num caminho do meio, as escrituras (de todas as religiões) falam em metáforas e uma metáfora não é pura verdade… mas está longe de ser mentira.
É como ler poesia como prosa.
Eu encontrei, nas palavras de Joseph Campell a definição de Deus que faz sentido para mim. Está no livro, O Poder do Mito:
“A fonte da vida temporal é a eternidade. A eternidade se derrama a si mesma no mundo. É a idéia mítica, básica, do deus que se torna múltiplo em nós. Na índia, o deus
que repousa em mim é chamado o “habitante” do corpo. Identificar se com esse aspecto
divino, imortal, de você mesmo é identificar se com a divindade.
Ora, a eternidade está além de todas as categorias de pensamento. Este é um ponto fundamental em todas as grandes religiões do Oriente. Nosso desejo é pensar a respeito de Deus. Deus é um pensamento. Deus é um nome. Deus é uma idéia. Mas sua referência é a algo que transcende a todo pensamento. O supremo mistério de ser está além de todas as categorias de pensamento. Como Kant disse, a coisa em si é não coisa. Transcende a coisidade e vai além de tudo o que poderia ser pensado. As melhores coisas não podem ser ditas porque transcendem o pensamento. As coisas um pouco piores são mal compreendidas, porque são os pensamentos que supostamente se referem àquilo a respeito e que não se pode pensar. Logo abaixo dessas, vêm as coisas das quais falamos. E o mito é
aquele campo de referência àquilo que é absolutamente transcendente”
Olá Karam.
Entendi seu ponto de vista.
Vejo não necessariamente uma “disputa ideológica”, mas sim, um período de trazer a tona o assunto, discutir, evidenciar, tirar o “véu” do “sagrado” e proibido.
O ateísmo, ao longo dos séculos, sempre foi taxado de “diabólico”, “insano”, “doentio”, e muitas outras coisas tristes que resultaram em perseguição e morte. Claro, os ateus não foram os únicos, mas também foram e são ainda!
Hoje, num contexto cultural e científico que permite ou enseja a dúvida, o ateísmo não deve silenciar a pretexto de uma suposto respeito às tradições ou “fé” alheia – deve antes respeitar o poder das pessoas em decidir no que acreditar, e as pessoas em si, mas pontos de vista, ideologias, crenças, pensamentos; tudo isso é passível de questionamento.
Quando vemos política, economia e religião utilizadas como “terror” ou “antiterror”, a blindagem das religiões como “valores pessoais que devem ser acatados” é questionada. Há uma externalidade que afeta os religiosos e não religiosos, a sociedade como um todo.
A questão não é uma guerra ou briga por valores, ou ridicularizar por ridicularizar num revanchismo histórico, a questão é que sim se pode, em prosa e verso, desde as polêmicas charges dinamarquesas e outras formas de expressão do pensamento; há a liberdade de fazê-lo, pois uma ideologia defende-se por rua robustez, lógica ou bom senso, e não porque é sua, minha, de uma maioria e de uma minoria.
A “fé” é para muitas pessoas algo bonito, algo sólido, algo que dá respostas e preenche vazios, pode ser conceituada das formas mais sublimes, porém, a problemática não esta em sentir isso e sim não permitir-se um questionamento sobre o processo.
Houve um tempo em que os “desuses” habitavam o Olimpo, e o acesso era interditado aos mortais. “Eles” nos viam do alto, e nossa percepção era de distância, admiração, medo e respeito. Hoje, os “deuses” que sobraram habitam na planície da existência humana, econtrando-se nas esquinas da razão que tenta compreender e compreender-se, e esbarrando nos paradoxos existências que mostram o homem como sujeito não passivo de sua existência.
Podemos começar acreditar em algo quando questionamos esse algo, ou ao menos permitimos o questionar. Uma fé deveria ser forte não por evitar o questionamento, mas por resistir a ele!
Abraços.
Sandro Filetti