Um Conto: Ele é carioca, ele é carioca…

agosto 21st, 2009 § 0 comments

Sua carteira havia sido roubada. Por sorte, alguém a encontrou jogada. Por mais sorte ainda, o rapaz que a encontrou levou-a ao seu trabalho levado pelo cartão de visitas. Lá estavam os documentos e até papéis sem importância. Só lhe faltava o dinheiro e a carteira de identidade. Quem roubaria uma carteira de identidade? Pensou. Agradeceu como pode ao rapaz – estava com dinheiro emprestado, pois o cartão e todo o resto tinha ido junto com a carteira. Como lhe aconselharam, fez um boletim de ocorrência na Polícia Militar para oficializar o roubo de sua carteira de identidade. Agora, era preciso tirar uma nova. (continua)

Com o boletim de ocorrência ele não teria que pagar pela nova carteira de identidade, o governo lhe garantia esse direito, ao menos esse. Resolveu ir na hora do almoço em um Poupa Tempo num shopping. Como lhe aconselharam, no Poupa Tempo eles tiram novos documentos num instante, sem a menor dificuldade ou burocracia.

Foi-se com um amigo para o Poupa Tempo. Sua senha foi chamada rápido. Apresentou seus documentos no primeiro guichê, teve que mostrar o B.O. para exigir a gratuidade do novo documento. A moça lhe perguntou: sua carteira de identidade era do Rio de Janeiro? Sim, respondeu prontamente. Depois ela conferiu tudo com calma e pediu-lhe que esperasse ser chamado novamente. Passada a triagem, sentou-se tranquilo e quando mal começou a conversar com seu amigo sua senha foi chamada novamente. Levantou-se no ato, satisfeito pela velocidade, foi para o segundo guichê.

Lá, a primeira pergunta que lhe fizeram foi: sua carteira de identidade era do Rio de Janeiro? Sim, respondeu prontamente. Essa atendente o olhava por cima dos óculos. Um modo estranho de olhar, mas parecia que realmente ela não enxergava muito bem as coisas. Depois de ter os documentos conferidos novamente, ele recebeu mais papéis para preencher. Depois disso, foi encaminhado para o terceiro guichê.

No terceiro guichê havia uma moça muito bonita, mas com uma feição de desconfiança. Com todo o ar e autoridade de uma estudante de faculdade de Direito, supunha ele, ela lhe perguntou: sua carteira de identidade era do Rio de Janeiro? Sim, respondeu prontamente. A moça desviou o olhar autoritário para os documentos que foram verificados novamente. Quando se preparava para se levantar, ela lhe fez mais um pedido. O senhor poderia assinar uma declaração de prórpio punho? Sim, respondeu prontamente. Então, teve que escrever na parte de trás de um dos documentos uma declaração de que ele nunca teve uma carteira de identidade daquele estado, que sua antiga era do Rio de Janeiro e que aquela seria sua primeira. Após escrita a declaração, assinou-a embaixo e foi encaminhado para o quarto guiche.

No quarto guiche, apresentou suas fotos para o documento. A atendente recebeu e lhe preguntou: sua carteira de identidade era do Rio de Janeiro? Sim, respondeu prontamente. Com um ar impaciente, tratou de apressar esse estágio. Fotos coladas, documentos verificados novamente, agora só lhe restava o último guichê.

Lá ele iria apenas pintar os dedos e colocar as suas digitais no papel, tocar piano, como se diz na gíria da malandragem carioca. Mas antes disso, mais uma vez teve que responder prontamente a mesma pergunta: sua carteira de identidade é do Rio de Janeiro? Sim. Pelo menos isso estava chegando ao fim. Dedos pintados e digitais no papel, deixou seus documentos dentro de um envelope em cima da mesa do guichê e foi lavar as mãos. Pronto, era só pegar seu envelope e ir para casa e esperar seu novo documento ficar pronto.

Ele voltou para o guichê e não encontrou o seu envelope. Quem roubaria um envelope com documentos? Pensou. Foi então que alguém tocou seu ombro. Era um segurança negro, alto e forte. Sua voz era forte também: você que é o rapaz da carteira de identidade do Rio de Janeiro? Sim, respondeu prontamente, percebendo que sua fama já tinha corrido todo Poupa Tempo. Posso ver o B.O.?, retornou o segurança com o olhar mais desconfiado do que ele havia recebido durante todo o processo. Está nas suas mãos, respondeu prontamente e a ponto de perder a paciência. Pensou em xingar, chamar a polícia ou até mesmo arrancar seus documentos da mão do segurança, mas percebeu que nada disso adiantaria, só geraria tumulto e se alguém perguntasse o que estava acontecendo, as pessoas do Poupa Tempo só diriam: ele é carioca. E nada conteceria. Então, o segurança verificou seus documentos novamente e só assim ele pode ir para casa.

Related Posts with Thumbnails

Tagged , ,

facebook comments:

Deixe um Comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

What's this?

You are currently reading Um Conto: Ele é carioca, ele é carioca… at Brechó do Carioca.

meta

SEO Powered by Platinum SEO from Techblissonline