Acabei de assistir o filme Jean Charles. Não é o melhor filme que já assisti na vida, mas dizer que nada mudou depois de vê-lo é mentira.
Temperado com a frieza britânica e a malandragem brasileira que Jean Charles parecia representar muito bem, o filme é ótimo. Paisagens contrastantes no faz valorizar não somente a beleza londrina, mas também de coisas simples. Mesmo o assistindo fora do “time” do jornalismo mundial, acho o filme atual e recomendo a todos.

Sobre o caso Jean Charles, acompanhei pela TV e internet o quanto pude, vi que mesmo com o filme e pressão da mídia os britânicos continuam cagando e andando para o caso, e mais precisamente, para imigrantes de países em desenvolvimento.
Uma das falas mais inteligentes do filme é: “lembremos que Jean Charles só foi morto porque foi confundido com um muçulmano”. Talvez não fosse a hora do Jean, mas quem sabe qual será a hora dos brasileiros. Afinal, o preconceito vai e vem sem deixar explicações.
Não quero incentivar nenhum orgulho brasileiro, pois Nietszche já dizia que todo nacionalismo é burro. O que quero incentivar é a reflexão de quanto vale uma vida, por mais diferente que ela seja da sua. Até que ponto o medo te dá direito a atirar cinco vezes na cabeça de outra pessoa?
Fora isso, o filme me fez refletir sobre nós brasileiros. Convido todas as nacionalidades a participarem da reflexão. Falo brasileiros por ter mais conhecimento de causa.
Existem dois tipos de brasileiros:
O primeiro são os que podem apostar no futuro. São aqueles que podem estudar sem se preocupar em ganhar o seu pão de cada dia. Os que podem apostar numa profissão, com estágios de salários míseros. Que são felizes com o que fazem e muitas vezes se definem pela profissão.
O segundo tipo não aposta no futuro porque não tem fichas. Ele tem que estudar e trabalhar, isso, quando consegue estudar. É aquele que tem que se desdobrar para viver. Literalmente tem que ser dois. Não só na questão mecânica das tarefas, mas na personalidade. É aquele que precisa fazer o que gosta nas horas vagas e ter um emprego para se manter. Meu pai, operário de fábrica, sempre me disse: Luiz, você acha que alguém nasce com vocação pra ser operário de fábrica? Desde pequeno eu sempre soube a resposta.
Esse tipo de brasileiro tem que engolir sapo, ouvir generalizações sobre sua profissão, mesmo que sabendo que ele não nasceu nela. Ele talvez tenha nascido branco, negro, pobre, gordo, mas não mecânico, operário, eletricista. Essa profissão, talvez seja o carma que ele tenha que carregar para o resto da vida, sorridente, porque senão pode perder o emprego. E parece que esse carma é cada vez mais evidente para deixar claro qual tipo de brasileiro você é.
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