Se Chico Buarque fosse publicitário

março 10th, 2010 § 2 comments § permalink

Desconstrução

Criou daquela vez como se fosse a última.
Fez cada job seu como se fosse o único.
Pensou o dia inteiro e ficou o máximo.
Mandou pro atendimento num e-mail tímido.

Teve que refazer como se fosse máquina.
A campanha reprovada com argumentos sórdidos.
Criou mais uma vez outros roteiros mágicos.
Esperou aprovação como se fosse lógico.

O cliente não gostou e aconteceu o trágico:
pediu pra refazer como se fosse um príncipe.
Tentou reagir mas se sentiu estático.
Pensou mais uma vez no concurso público.

E virou a noite inteira parecendo um bêbado.
Comeu pizza de novo e ficou mais flácido.
Bebeu a noite inteira cafezinhos básicos.
Saiu de manhazinha se sentindo estúpido.
E ainda teve que voltar pra terminar no sábado.

Vi no PropagandaMT

E aí, alguém se propõe gravá-la?

Nu diante do espelho

setembro 25th, 2009 § 2 comments § permalink

Vou contar os bastidores de uma das minhas poesias. A “Primitivo” uma das que mais gosto. Ela está no meu livro, e abaixo. Leia e depois veja como ela foi criada.

Imagem1

Você faz idéia de onde veio a inspiração pra essa poesia? Pense 10 segundos, depois leia a história abaixo:
Eu fiz uma oficina de criação literária com o João Silvério Trevisan. Em um dos exercícios para se fazer em casa, era para que a gente escrever nu diante do espelho. Ter apenas papel e lápis à mão, sem roupa, sem nada e escrever um texto literário olhando para si mesmo, nu.

Decidi fazer o exercício antes de dormir. À noite, assisti uma reportagem falando sobre um calendário feito com os jogadores da seleção italiana em fotos eróticas, todos depilados. Olhei pra mim, cabeludo, barbudo e com pelos por todo corpo. Me senti como um Fiat 147 no estacionamento de um shopping de luxo. Então as mulheres agora gostam de homens sem pêlos? Isso me incomodou, mas não o bastante pra tirar o meu sono.

Fui deitar, mas antes, fui fazer o exercício. Foi então que pela primeira vez reparei ou encarei os meus pêlos. Sempre os via como coadjuvantes do corpo. Agora eu estava olhando para eles mesmo. Me senti feliz com eles. Achei que cada um estava no lugar certo, mas a reportagem ainda me incomodava. Então, foi assim que nasceu a poesia “Primitivo”.

O que mais me encomodou no exercício foi a vulnerabilidade. Não costumo andar nu pela casa, me senti desprotegido. Mas acho que até nisso meus pêlos me ajudaram.

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