Tava na cara que a liberdade não viria tão fácil. Até porque o governo de transição para a democracia foi uma junta militar. Nunca confie nos militares. Se fossem bem intencionados, não precisariam de tantas armas.
O designer @Ganzeer foi preso em maio por fazer este poster em protesto contra a junta militar que controla o Egito. Recebi a notícia via @CarlosLatuff.
Gene Sharp é um cientista político americano. Um especialista em revoluções não-violentas, foi um dos inspiradores da revolução do Egito.
Sharp é o autor de “Da Ditadura à Democracia – um guia conceitual para a libertação”. O livro de apenas 93 páginas, disponível para download em 24 línguas tem inspirado dissidentes em países como Mianmar, Bósnia, Estônia e Zimbábue – e agora, na Tunísia e no Egito.
Sharp, de 83 anos, vive hoje em uma pequena casa em Massachusetts, comprada em 1968. Assistiu à revolução egípcia pela televisão. “O povo do Egito fez isso. Não eu.”, diz.
Sharp inspirou seu trabalho nos ensinamentos de Gandhi. Seus textos falam de desobediência civil, boicotes econômicos e luta por direitos civis. De acordo com ele, a não-violência é a melhor arma contra uma ditadura. “Se você luta com violência, está lutando com a melhor arma do seu inimigo. Será um herói corajoso e morto”.
Pelo visto, estão lançando um filme sobre a vida deste pacífico guerreiro. Ainda não há legendas em português, mesmo assim, posto o trailer abaixo pra quem tiver interesse em conhecer mais sobre Gene Sharp.
As pessoas não estão surpresas por ver as ditaduras do Oriente Médio sendo enfrentadas. Mas sim porque todas essas ditaduras eram patrocinadas pelo país que se proclama o maior defensor da democracia mundial, os EUA. Vamos recordar algumas façanhas dos EUA.
- Eles treinaram o Osama Bin Laden para lutar contra os Soviéticos Russos. Depois de expulsá-los, Osama ajudou a implantar a ditadura do Taleban no Afeganistão.
- Sadam Hussein foi criado e enforcado pelos EUA também. Os EUA começaram a patrocinador o ditador Hussein na antiga guerra Irã-Iraque. Se você não tem idade para se lembrar disso, pergunte aos seus pais.
- Mais recentemente, no fim dos anos 90 tivemos o caso de Timor Leste. Um território massacrado pelo exército da Indonésia, governada por um ditador patrocinado pelos EUA. Pelos registros, o massacre de Timor Leste foi um dos maiores da humanidade.
- Os EUA patrocinavam também a ditadura no Paquistão. Depois que ela foi derrubada pelo povo, rompeu relações com o país e começou a patrocinar seu principal rival e vizinho Índia. Onde os conflitos, inclusive religiosos entre muçulmanos e hindus, são constantes.
- Também dizem as más línguas que os EUA patrocinaram as ditaduras militares da América Latina, inclusive do Brasil com a sua operação Brother Sam.
- Assim como Hitler presenteou seu amigo fascista Franco com um bombardeio a Guernica, foco rebelde na Guerra Civil Espanhola, os EUA patrocinam ataques e genocídios pelo mundo. Vide Israel e Palestina.
Para quem tinha alguma esperança em Barack Obama, o Egito nos mostrou que ele mantém a mesma política externa baseada na guerra e na força.
Fico triste em ver e descobrir tudo isso. Mesmo vendo o povo triunfar como o caso do Egito, me dá uma certa angústia. Parece que somos insignificantes demais e quando ficamos sabendo da verdade (se é que ficamos sabendo), já é tarde, os interesses já são outros, os planos mudaram, mas a desgraça continua.
* a maioria dos dados citados acima foram tirados do livro Propaganda e Consciência Popular de Noam Chomsky.
É lógico que você não ouvirá a mídia falar em anarquia em momento nenhum numa revolução bem-sucedida, mas o Egito mostrou com exemplos práticos alguns pensamentos anarquistas.
Ação direta: a política está nas ruas. No caso, começou com manifestações pacíficas, porém sem medo de repressões. Foi indo às ruas que o povo egípcio começou sua revolução;
Auto-defesa: embora o movimento tenha tido um grande caráter pacífico, o povo mostrou que sabia se defender quando preciso e que tinha determinação o bastante para isso;
Objetivos definidos pelo povo: os egípcios tinham objetivos claros, sabiam muito bem o que queriam, não buscavam negociações com políticos ou partidos. Essa é uma característica forte da autogestão;
Autogestão: em momento nenhum foi declarado um líder. O povo sabe o que é melhor para ele. Seguia sua vontade, sem obedecer líderes ou lideranças, inclusive para derrubar um líder que não atendia o povo;
Isso sem falar em revolução permanente entre outros conceitos anarquistas.
Você só ouvirá o termo anarquia para definir o caos, e não para definir uma manifestação legítima de um povo oprimido. Isso sim é anarquia, é fazer a revolução sem precisar de partidos ou líderes. Mais do que bagunça, é colocar ordem na casa, colocando para fora corruptos como Mubarack.
Uma pena agora eles terem que eleger um líder pelas ditas “eleições democráticas”. E você, ainda acha que anarquia é bagunça?
Saúde e anarquia para o povo do Egito.
@Ghonim, um dos envolvidos e preso pelas forças de Mubarak, deixou um ótimo recado para as nações do ocidente. no seu Twitter Foi algo do tipo: Vocês sabiam da opressão e não fizeram nada. Agora que conseguimos a liberdade, não venham nos dizer o que fazer. Agora não precisamos de vocês.
Eu olho agora as notícias sobre a crise que abate o Egito e penso no papel da internet nisso tudo. Até alguns dias eu não tinha uma ideia tão clara disso, mas agora, após Wael Ghonim ser solto pelos policiais, não há mais dúvidas de que se trata mesmo de uma revolução da internet, algo que nunca havia acontecido antes. Sempre acreditei que essas redes sociais têm um grande poder de mobilizar pessoas, mas eu nunca achava que isso tivesse outros resultados práticos se não o de gerar porcarias. Mas vendo os últimos acontecimentos do Egito, acompanhando a história de Ghonim, ele próprio diretor da Google, minha concepção de redes sociais mudou radicalmente.
Ghonim é diretor de marketing da Google no Oriente Médio e, via redes sociais, ele e seu grupo conseguiram a mobilização de milhares de pessoas para o primeiro grande levante popular contra o governo egípcio, no 25 de Janeiro. Agora, após ser preso por 12 dias e ser libertado, ele concede entrevistas emocionantes, fortes e dá um novo fôlego ao movimento. E diz que esta é uma revolução da internet, sem líderes, mas com muitos heróis.
O final da entrevista é de arrepiar: “… várias vezes eles [policiais] simplesmente atiraram nas pessoas. Eles ficavam sobre a ponte e atiravam nas pessoas que estavam sob ela. Isso é um crime. Este presidente deve renunciar, porque isso é um crime. E eu posso te dizer, (…) tenho muito a perder nesta vida (…), eu trabalho na melhor empresa para se trabalhar no mundo, eu tinha a melhor esposa e eu amo meus filhos, mas estou disposto a perder tudo isso para que meu sonho se torne realidade e para que ninguém vá contra o nosso desejo. Ninguém! E estou dizendo isso para Omar Suleiman. Ele vai assistir a esta entrevista. Você não vai nos deter. Sequestre-me. Sequestre todos os meus colegas. Coloque-nos na cadeia. Mate-nos. Faça o que quiser. Nós vamos ter nosso país de volta. Vocês têm ferrado com este país durante 30 anos. Já basta. Já basta. Já basta”.
Um brechó, uma bagunça. uma válvula de escape. um canal alternativo de comunicação. poesias, devaneios, filosofia, cotidiano, mundo e unas cositas más by Luiz Carioca