Como ser um cidadão otário e alienado em 5 passos:

fevereiro 6th, 2012 § 0 comments § permalink

1- A CULPA NÃO É SUA: se o mundo está cheio de injustiças, de pessoas passando fome enquanto outras andam de helicóptero, você não tem nada a ver com isso. Graças ao bom Deus você nasceu em uma família com condições de lhe dar uma vida digna e boa educação. Apenas lamente que os miseráveis não tiveram as mesmas oportunidades que você. Os ricos só são ricos porque eles trabalharam muito pra ter aquele montante de dinheiro: pessoas como Eike Batista, Steve Jobs e Bill Gates são grandes gênios que souberam aproveitar as oportunidades e as portas que lhes foram abertas. Os pobres, mendigos e marginalizados em geral são pobres porque querem ou porque não tiveram educação suficiente.

2- O ESTADO É NEUTRO: a polícia está aí só para te proteger. A justiça, apesar de ser um pouquinho lenta, ainda é cega dentro dos limites do aceitável. Se os serviços públicos (como saúde e educação) são de qualidade duvidosa, isso é culpa dos governantes [ver o passo nº3]… Por isso opte sempre pelos serviços básicos privados.

3- A CULPA É DO GOVERNO: o governo está abarrotado de salafrários corruptos. É tudo culpa deles! Nada é culpa sua [releia o passo nº 1]. Se você votou nas últimas eleições, é porque você foi obrigado a isso. Se alguém te questionar em quem você votou, e como seu deputado está se comportando, diga que você votou nulo porque você não acredita no governo. Lembre-se sempre: nada é culpa sua. Você faz a sua vida e dá as costas pro governo, porque, afinal de contas, você é melhor que todos eles juntos. Eles só servem para roubar os seus impostos. Nesse ponto você deve ficar bravinho, mas sem fazer nada. No máximo soltar uma frase de efeito.

4- IGNORE A HISTÓRIA: direitos sociais, políticos e civis? O que é tudo isso? Faça-se de desentendido. Acredite: os direitos do cidadão NÃO foram conquistados com muita luta, muito protesto, muita gente na rua e muito sangue derramado. Eles já estavam aí quando você nasceu, logo, ELES CAÍRAM DO CÉU. Acredite: nós já temos direitos demais. Apesar de tudo ser culpa do governo [releia o passo nº3], trate com sarcasmo e ódio as pessoas que saem às ruas para protestar: eles são apenas vagabundos e/ou filhinhos de papai com saudosismo da ditadura, e que estão aí fechando o trânsito.

5- EU SÓ QUERO É SER FELIZ: andar tranquilamente pela Paulista, olhando as vitrines, consumindo, comendo no Starbucks, passeando pelo shopping. Viva para trabalhar, trabalhe para consumir e lembre-se: o consumo é a única razão de você estar aqui. Os insumos da cesta básica estão caros demais? Fazer o que né. É a vida. As taxas cobradas pelo banco estão muito altas? Deve haver alguma explicação. É a vida. Os impostos estão cada vez mais altos? Releia o passo nº3. E se o dinheiro não está dando, procure um outro emprego. NEM PENSE em reivindicar melhores salários. Se a culpa nunca é sua, ela também não é do seu patrão. O seu patrão é apenas um investidor honesto… Ele já tem muito o que pagar com seus funcionários, com a estrutura da empresa e com os impostos. Um aumento no seu salário só iria lhe prejudicar. E não se esqueça: sindicato é coisa de bandido. A luta sindical e coletiva é desnecessária hoje em dia [releia o passo nº4].

E se, além de seguir religiosamente todos esses passos, você sentir um ódio visceral e infantil contra quem não concordar com eles, PARABÉNS!!!! Você estará avançando um nível: deixando de ser um cidadão otário e alienado pra se tornar um FASCISTA.

Texto de Bruno Casalotti

novembro 29th, 2011 § 0 comments § permalink

Acredito que a única maneira clara de definir o objeto da filosofia é dizer que ela se ocupa de todos os resíduos, de todos os problemas que ficam ainda insolúveis, após experimentar todos os métodos aprovados anteriormente. Ela é o depositário de tudo o que foi abandonado por todas as ciências, em que se encontra tudo o que não se sabe como resolver.

J. L. AUSTIN
Colóquio de Royaumont – 1958

Barba é para os esclarecidos

junho 24th, 2011 § 1 comment § permalink

Os gregos costumavam dizer que: a barba não faz o filósofo. Afinal, os filósofos costumam ser solitários e quietões. Já a barba te torna um homem muuuiito melhor.

Dá uma olhada nos pensamentos, mais do que filosofia, isso é sabedoria da mais alta qualidade. Se quiser ver mais, tem lá no The Beradly.

Pichação: arte ou crime?

agosto 15th, 2010 § 0 comments § permalink

Esse é o tema de uma pesquisa que estou fazendo no curso de filosofia. É uma pesquisa pequena, pois sei que o assunto dá muito pano pra manga.

É comum eu ouvir pessoas me perguntando: você vai pesquisar sobre pichação ou grafite? Minha pesquisa é mesmo sobre pichação como arte. Grafite, pra mim, não tem mais o que se discutir, uma vez que empresas pagam pelo trabalho, existem cursos e o melhor, já entrou no museu. Acredito que o grafite já se consagrou arte, e comercial. Por isso mesmo, vem se tornando o mais novo alvo de pichações.

Grafite e pichação sempre foram aliados. Um não atropelava o outro. Mas quando o grafite começou a ser visto como arte, muita gente se utilizou dele para fugir da pichação. Pessoas pagaram para que grafitassem o seu muro, sendo assim, ele não seria mais pichado. Muito desses grafites, atropelaram várias pichações, começando aí um conflito. Hoje, o grafite aliado é visto com maus olhos pelos pichadores.

Para ambientar melhor o assunto, postei abaixo dois vídeos, um sobre a pichação no Rio de Janeiro, outra sobre a pichação em São Paulo.

Se você souber de algo sobre o assunto, tiver um livro para indicar, ou qualquer dica, por favor, deixe seu comentário.

“Arte como crime. Crime como arte.”

- Hakim Bey

Pichação no Rio – Que o mundo veja

Pichação em SP – Pixo

Forma rápida de adquirir cultura

julho 8th, 2010 § 1 comment § permalink

1) Marcel Proust.
À La recherche du temps perdu. (Em Busca do Tempo Perdido).
Paris, Gallimard. 1922. 1600 páginas.
Resumo: Um rapaz asmático sofre de insônia porque a mãe não lhe dá um beijinho de boa-noite. No dia seguinte (pág. 486. vol. I), come um bolo e escreve um livro. Nessa noite (pág. 1344, vol.VI) tem um ataque de asma porque a namorada (ou namorado?) se recusa a dar-lhe uns beijinhos. Tudo termina num baile (vol. VII) onde estão todos muito velhinhos – e pronto. Fim.

2) Leon Tolstoi.
Guerra e Paz.
Paris, Ed. Chartreuse. 1200 páginas.
Resumo: Um rapaz não quer ir à guerra por estar apai! xonado e por isso Napoleão invade Moscou. A mocinha casa-se com outro. Fim.

3) Luís de Camões.
Os Lusíadas.
Editora Lusitania.
Resumo: Um poeta com insônia decide encher o saco do rei e contar-lhe uma história de marinheiros que, depois de alguns problemas (logo resolvidos por uma deusa super-gente-fina), ganham a maior boa vida numa ilha cheia de mulheres gostosas. Fim.

4) Gustave Flaubert.
Madame Bovary. 778 páginas.
Resumo: Uma dona de casa mete o chifre no marido e transa com o padeiro, o leiteiro, o carteiro, o homem do boteco, o dono da mercearia e um vizinho cheio da grana. Depois entra em depressão, envenena-se e morre. Fim.

5) William Shakespeare.
Romeo and Juliet.
Londres, Oxford Press.
Resumo: Dois adolescentes doidinhos se apaixonam, mas as famílias proíbem o namoro, as duas turmas saem na porrada, uma briga danada, muita gente se machuca. Então um padre tem uma idéia idiota e os dois morrem depois de beber veneno, pensando que era sonífero. Fim.

6) William Shakespeare.
Hamlet.
Londres, Oxford Press.
Resumo: Um príncipe com insônia passeia pelas muralhas do castelo, quando o fantasma do pai lhe diz que foi morto pelo tio que dorme com a mãe, cujo homem de confiança é o pai da namorada, que entretanto se suicida ao saber que o príncipe matou o seu pai para se vingar do tio que tinha matado o pai do seu namorado e dormia com a mãe. O príncipe mata o tio que dorme com a mãe, depois de falar com uma caveira e morre assassinado pelo irmão da namorada, a mesma que era doida e que tinha se suicidado. Fim.

7) Sófocles.
Édipo Rei – tragédia grega.
Várias edições.
Resumo: Maluco tira uma onda, não ouve o que um ceguinho lhe diz e acaba matando o pai, comendo a mãe e furando os olhos. Por conta disso, séculos depois, surge a psicanálise que, enquanto mostra que você vai pelo mesmo caminho, lhe arranca os olhos da cara! em cada consulta. Fim.

8 ) William Shakespeare.
Othelo
Resumo: Um rei otário, tremendo zé-ruela, tem um amigo muito fdp que só pensa em fazê-lo de bobo. O tal “amigo” não ganha um cargo no governo e resolve se vingar do rei, convencendo-o de que a rainha está dando pra outro. O zé-mané acredita e mata a rainha. Depois descobre que não era corno, mas apenas muito burro por ter acreditado no traíra. Prende o cara e fica chorando sozinho. Fim

Parabéns (ou não), você acaba de economizar a leitura de pelo menos 7.000 páginas.

(recebido via e-mail)

Heidegger e a angústia

junho 14th, 2010 § 0 comments § permalink

Sábado dia 29 de maio eu fui assistir um curso sobre Heidegger e Merleau-Ponty na Metodista de São Bernardo do Campo.

Consegui fazer um podcast sobre a parte de Heidegger com a Profª Suze Pisa. A descrição do curso é:

Diante dos impasses manifestados nas contradições da existência concreta, importantes pensadores contemporâneos optaram por uma reflexão que aproxime as teorias filosóficas da condição humana no mundo. O curso tratará de alguns aspectos das teorias de Marx, Heidegger e Merleau-Ponty, oferecendo chaves de interpretação para leituras do mundo contemporâneo.

O curso apresenta o pensamento de Heidegger e fala sobre a angústia eterna do ser humano. Heidegger vai contra a tradição filosófica de Descartes: “penso, logo existo”. Ele não só leva em consideração o outro na nossa realidade, como aponta a relação entre sujeito e objeto como fundamental.

Segundo Heidegger, somos uma clareira, um espaço vazio que aos poucos é constituído através da existência e da relação com o mundo. Que é preenchido ao longo da vivência.

Isso, e muito mais, está no podcast. Não precisa entender de filosofia para aproveitar o podcast. Porém, quanto maior o seu conhecimento de filosofia, maior o seu aproveitamento.

Baixe aqui o podcast sobre Heidegger.

Trazendo “As Nuvens de Aristófanes” para a nossa realidade.

abril 19th, 2010 § 0 comments § permalink

Trecho da versão original

Estrepsíades: Olhe ali (aponta a casa de Sócrates). Você está vendo aquela portinha e aquele casebre?

Fidípides: Estou vendo. Papai, de fato o que é aquilo?

Estrepsíades: De almas sábias é aquilo um pensatório (phrontisterion)… Lá moram homens que, quando falam do céu, querem convencer de que é um abafador, que está ao nosso redor, e nós… somos os carvões! Se a gente lhes der algum dinheiro, eles ensinam a vencer com discursos nas causas justas e injustas.

Fidípides: Mas quem são eles?

Estrepsíades: Não sei ao certo seu nome. São pensadores meditabundos, gente de bem!

Fidípides: Ah! Já sei, uns coitados! Você está falando desses charlatães, pálidos e descalços, entre os quais o funesto Sócrates e Querefonte…

Versão adaptada aos dias de hoje em Campinas

Estrepsíades: Olhe ali (aponta a Unicamp). Você está vendo aquele portão e aquele campus?

Fidípides: Estou vendo. Papai, de fato o que é aquilo?

Estrepsíades: De almas sábias é aquilo um pensatório (phrontisterion)… Lá moram homens que, quando falam do céu, querem convencer de que é um abafador, que está ao nosso redor, e nós… somos os carvões! Se a gente lhes der algum dinheiro, eles ensinam a vencer com discursos nas causas justas e injustas.

Fidípides: Mas quem são eles?

Estrepsíades: Não sei ao certo seu nome. São pensadores meditabundos, gente de bem!

Fidípides: Ah! Já sei, uns coitados! Você está falando desses charlatães, pálidos e descalços, pobres meninos ricos.

Referência: Aristófanes, As Nuvens, trad. Gilda Maria Reale Starzynski, in Sócrates, São Paulo, Nova Cultural, 1991, 90-105.

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