Saudades do peixinho

julho 7th, 2011 § 0 comments § permalink

Cresci nas proximidades do Maracanã. Minhas lembranças da infância foram premiadas com as jogadas de Zico e do time do Flamengo dos anos 80. Uma das jogadas que sempre admirei no futebol é o chamado peixinho. Pra quem não conhece, o peixinho é quando o jogador se joga pra frente como um míssil, de cabeça na bola, sem medo de pé alto ou sarrafo de zagueiro. Normalmente, o resultado de um peixinho é bola na rede.

Um peixinho que ficou marcado na história foi o do atacante Almir Pernambuquinho, do Flamengo de 1966. Almir era um atacante da pá virada, madeira de dar em doido. Ele foi o primeiro bad boy do futebol brazuca. Disputava todas. Para ele, não existia bola perdida. Num jogo contra o Bangu, Almir deu um peixinho e o goleiro Ubirajara espalmou. A torcida já estava de pé comemorando o gol. Havia chovido muito e a área estava um lamaçal só. Caídos no chão, Almir e Ubirajara se entreolharam e viram a bola parada em uma poça d’água em frente à linha do gol.

Os dois saíram catando cavaco desesperadamente. Almir, mesmo em vantagem, percebeu que, se resolvesse se levantar para chutar a bola, o goleiro Ubirajara pularia e a alcançaria com as mãos antes dele. Não vacilou, pulou de cara na bola, na grama, na lama. Empurrou-a para dentro do gol com a cabeça. Foi pura raça, foi gol do Almir-Raça! Em seguida ele se levantou e mal dava para identificar o seu uniforme, que antes rubro-negro e agora estava marrom, coberto de lama. Com esse gol, o Flamengo venceu o Bangu por 2 a 1.

A foto de Almir no chão, com o rosto coberto de lama, cercado de pés e seguido pelo goleiro com os olhos arregalados virou capa de jornal. Chegou a ser capa da revista France Football. Foi o peixinho mais feio e o mais bonito até então. Não cheguei a ver o gol de Almir, mas, durante a minha vida, vi muitos peixinhos. De Zico, Bebeto, Renato Gaúcho e até de Junior Capacete, mas em sua época de Junior Maestro, no Flamengo de 1992. O tempo foi passando e o peixinho foi ficando cada vez mais raro. Hoje, não me lembro do último que vi.

Hoje eu olho para o jornalismo esportivo e me parece que, para não declarar a extinção do peixinho, muitos jornalistas consideram algumas cabeçadas, onde o jogador apenas cai no chão, como peixinho. Mas nada se compara aos peixinhos dos velhos tempos. Hoje parece que há mais dinheiro do que futebol em jogo. Já imaginou um milionário rolar na lama? Jamais.
Enquanto isso, continuo torcendo de teimoso. Vejo muitas vezes os craques milionários esticarem os pés só pra cumprir tabela, fazer de conta que tentaram. Afinal, todo torcedor sabe lá no fundo que só com um peixinho ele alcançaria aquela bola.

Curiosamente, no fim da carreira, Almir ficou conhecido por denunciar as falcatruas do dinheiro no futebol. Num lance infeliz, o bad boy da Gávea encontrou seu fim no calçadão da Avenida Atlântica em 1973, quando foi defender atores do grupo Dzi Croquetes que estavam sendo ameaçado por um grupo de portugueses homofóbicos. Um dos portugueses sacou um revólver e atirou no mais corajoso atacante que o futebol brasileiro já conheceu. Almir morreu na hora. O crime nunca foi esclarecido pelas autoridades. Os portugueses sumiram, e o grupo Dzi Croquetes não existe mais. Só o que ficou foram as saudades de Almir Pernambuquinho e do peixinho.

(Almir no centro, Silva na direita da foto. Uma das melhores duplas de ataque que o Flamengo já teve.)

Ética no esporte: show me the money.

novembro 3rd, 2010 § 0 comments § permalink

Recentemente a seleção brasileira de vôlei masculino entregou um jogo para que tivesse um caminho mais fácil para a final. Talvez você considere antiético esse comportamento, mas nem todos pensam assim.

A palavra ética vem do grego Ethos, que quer dizer costume. Ser quem você é. Já a moral, diferente da ética, seria o viver para os outros, visa um comportamento mais normativo, um padrão social. É dever da ética regulamentar a moral, colocando limites para que esse padrão de comportamento não prejudique o indivíduo.

Além disso, o indivíduo ético possui 4 características básicas:
1 ser consciente de si e dos outros;
2 dotado de vontade própria e capaz de dominar seus impulsos;
3 ser responsável por suas ações;
4 ser livre e autônomo.

Pode-se dizer que a seleção brasileira de vôlei seguiu todas essas características. Consciente de si e dos demais times, escolheu seu adversário e consequentemente o caminho para o título. Foi capaz de dominar seus impulsos e orgulhos já que a derrota era melhor para o time.

Se responsabilizou pela ação e suas conseqüências, não desrespeitando os adversários e jogando de acordo com o regulamento. Ser livre e autônoma. Escolheu seu adversário sem sentir a pressão de torcida, imprensa ou dos demais times.

Se considerarmos que o objetivo da seleção é ser campeã, sem ferir os regulamentos, e divulgar o esporte no país, conseguindo mais retorno para seus patrocinadores, podemos considerar que eles atingiram os seus objetivos de forma ética.

Agora vamos ao futebol. Imagine se estiver nas mãos do Atlético Mineiro a opção de tirar o título do Cruzeiro. Ele entregaria o jogo ou ajudaria o seu rival a ser campeão e ganhar dinheiro para investir em novos reforços no ano que vem? Isso sem falar nas piadas? Se fosse você, o que faria?

Jogar bravamente e ajudar seu rival a ser campeão seria uma atitude ética ou apenas moral? Particularmente, eu acredito que seria uma atitude moral, um jogar para os outros, prejudicando a si mesmo honrando o regulamento que o colocou nessa posição e fazendo vistas para a imprensa.

Isso acontece muito no modelo de Campeonato Brasileiro com pontos corridos. Acho que a melhor maneira de ser ético é defendendo a si mesmo. No caso do futebol, no mata-mata.

Você acredita que o Grêmio tenha entregue o jogo ao Flamengo para evitar que o Internacional fosse campeão? E você, o que faria?

Dia de Camilo Cienfuegos e do Flamenguista

outubro 28th, 2010 § 0 comments § permalink

Um dia, dois bons motivos. Dia 28 de outubro é Dia do Flamenguista e também Dia de Camilo Cienfuegos, anarquista revolucionário cubano, filho de revolucionários espanhóis, que lutaram contra o ditador Franco.

Conhecido como Jesus Bem Humorado ou Jesus Brincalhão pelo povo de Cuba, Camilo era adorado por todos. Alguns relatos dizem que sua popularidade era tão grande quanto a de Che Guevara.

Camilo Cienfuegos é um desse que acreditou num sonho e o realizou. Ele acreditava na revolução, e como dizem nas palestras de auto-ajuda: sem saber que era impossível ele foi lá e fez.

Pra mim, ele é um exemplo de ser humano e existência. Não à tôa o coloquei como meu avatar.

Hoje crianças cubanas jogam flores ao mar em homenagem a Camilo Cienfuegos. Ele morreu em um desastre de avião em 28 de outubro de 1959. Alguns contam que o avião teria sido sabotado por ordens de Fidel Castro. Pois um anarquista com tamanha popularidade era uma ameaça ao sistema comunista cubano.

Salve, salve Camilo Cienfuegos e todos os Flamenguistas, que assim como o revolucionário, amam as cores preta e vermelha.

A despedida de Zico.

outubro 2nd, 2010 § 0 comments § permalink

Estou triste e cansado de falar de política, embora tenha sido ela que afastou o Zico do meu Flamengo. Por isso, sobre o caso só direi o seguinte: a maior perda não é a saída do Zico, mas sim a permanência de safados como o Leonardo Ribeiro.

Eu cresci vendo o Zico jogar. Zico, Junior e Andrade são meus maiores ídolos no futebol. Como eu jogava recuado no meio de campo, costumava dizer que eu era o Andrade. Jamais tive a pretensão de ser o Zico.

Pra mim, o Zico é como o John Lenon ou Paul McCartney para os beatlemaníacos. Posso dizer que ele faz parte do que me tornei. Foi com o exemplo do Zico que cresci apaixonado por futebol.

Você não imagina o que é subir as rampas do Maracanã, seguindo a camisa 10. Pequeno, não via nada além da camisa 10. Quando então, eu de mãos dadas ao meu pai, chegávamos às passagens que dão acesso à arquibancada, o coração disparava. A luz do sol invadia os olhos. O barulho era ensurdecedor, milhares de pessoas gritando e cantando para o Flamengo. Muitas crianças choram quando se deparam com isso, eu sempre me mantive firme. Eu sabia que aquilo era bom pra mim.

Hoje, ainda estou refletindo sobre a pancada que levei: “Zico fora do Flamengo“. Ninguém começa um relacionamento pensando no fim. Fiquei feliz com a entrada do Zico na diretoria rubro-negra. Mas se eu soubesse que a saída seria tão triste, não sei se apoiaria.

Pensei durante horas sobre o que escrever aqui. No Urublog saiu o título, “o post mais triste”, aqui também creio que seja. Acho que milhares de blogs estão tristes hoje. O clima é de tristeza. O preto e o vermelho nunca foram tão tristes.

O Imperador voltou.

abril 29th, 2010 § 0 comments § permalink

Flamengo Hexacampeão. Yes, we créu.

dezembro 7th, 2009 § 2 comments § permalink

Parece que meus pedidos foram atendidos. Não só o Flamengo é hexacampeão como também, a imagem que eu postei do Andrade com a frase: “No sapatinho we can”, já postada no Brechó, agora ressurge reformulada. Como eu havia sugerido, e acho que outros milhares de rubro negros, agora a frase é: “No sapatinho we créu“. Dá-lhe Mengão.

sapatinho-we-creu

Flamengo Hexacampeão. Que torcida é essa?

dezembro 7th, 2009 § 0 comments § permalink

Para comemorar a conquista do Campeonato Brasileiro de 2009, vou compartilhar com meus compatriotas rubro negros e com quem mais quiser o ótimo documentário: Que torcida é essa?

O documentário é sobre a maior torcida de futebol do mundo, a torcida do Flamengo. É um Projeto final da faculdade de Desenho Industrial – PUC-RJ – 2008.01, com direção de Bruno Nin e está disponível no Youtube.

Veja aqui os outros capítulos do documentário: [parte 2] [parte 3] [parte 4]

Sou Flamengo, sou cidadão dessa Nação Rubro Negra, e não tem como não ficar orgulhoso de fazer parte dessa torcida. Em 2009, o Flamengo teve uma média de 40 mil torcedores pagantes. Com certeza, não é pra qualquer um.

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