A polícia já não sabia mais o que fazer. A mídia lançava notícias, informando que faltava pouco para desvendar o mistério do matador, mas, nos bastidores, ninguém tinha a menor pista desse serial killer de jogadores de futebol.
Sua ação era imprevisível porque, acima de tudo, dependia do andamento do jogo. Era impossível saber em que jogo ele agiria. A única coisa que todos sabiam é que ele, com uma mira implacável, dava um tiro fatal no peito do atacante que perdesse um gol feito, daqueles que todo torcedor diz: esse até minha vó fazia.
Já haviam acontecido três mortes. A primeira vítima isolou um pênalti num jogo da Seleção Brasileira. A segunda perdeu um gol de cabeça dentro da pequena área. A terceira driblou o goleiro, tentou fazer de letra e errou o gol. Cada um dos três jogadores caiu com um tiro fatal que acertava o peito, furando o brasão do uniforme. A polícia não sabia sequer se ele estava no estádio ou em algum prédio vizinho nos momentos dos disparos. Nem mesmo se era apenas um atirador ou um esquadrão que não perdoava gols perdidos.
Rafael acabava de retornar para o Juventus, clube no qual havia sido revelado, para encerrar a sua carreira. A volta do jogador, que já fora eleito o melhor do mundo, atraiu muitos patrocínios, mercenários e sanguessugas ao pobre time que acabara de subir para a primeira divisão do campeonato brasileiro. No começo da temporada, Rafael marcou muitos gols na segundona do paulistão. Isso tornou cada vez mais concreto o sonho do milésimo gol. Mas no brasileiro a história era outra. Jogadores de diferentes patrocinadores, atraídos pela mídia que Rafael trazia consigo, garantiam sua posição no grito e no dinheiro. Muitos deles não se falavam nos vestiários. E era visível a desunião da equipe: certa vez, foi preciso até mesmo separar uma briga entre jogadores do mesmo time. A defesa era uma água, o meio não funcionava. Rafael e seu companheiro de ataque ficavam às moscas. A cada partida, o rebaixamento se tornava mais concreto e inevitável.
Contra a rival Portuguesa, o Juventus perdia de sete a zero. Rafael só precisava de mais um gol para alcançar o milésimo. Até que, então, o árbitro marca pênalti para o Juventus. As emissoras de TV passaram a transmitir o momento ao vivo. As torcidas dos dois times ficaram de pé e gritavam o nome de Rafael. Será que mais um jogador brasileiro se consagraria com o milésimo gol? Era o que todos esperavam. Seu parceiro de ataque trouxe a bola e entregou nas mãos de Rafael. Por um minuto o artilheiro pensou: se marcasse, eternizaria seu milésimo gol numa derrota histórica, num vexame; se perdesse, poderia fatalmente ser alvo do matador.
Com as mãos na cintura Rafael olhava nos olhos do goleiro tentando enxergar o futuro. Pensou, suspirou, sentiu o suor que escorria de sua cabeça raspada que escondia alguns cabelos brancos. Rafael partiu para a bola e chutou com toda a sua força. A bola passou alguns metros acima do gol e foi parar na torcida, que catatônica, não acreditava no que acabava de ver. Rafael decidiu que enfrentar a derrota seria pior do que morte, pois teria que aprender a conviver com ela.
Colocou as mãos na cabeça e fechou os olhos esperando pela picada fatal em seu peito. De repente, sente um empurrão. Policiais e jogadores se jogaram em cima dele para protegê-lo. Os câmeras e os fotógrafos varriam as arquibancadas e prédios com suas lentes de longo alcance. Depois de um tempo, Rafael se levantou. Nenhum sinal do atirador.
No dia seguinte, todos os jornais crucificaram Rafael que, segundo eles, não servia nem para fazer gol de honra. A imprensa passou a tratá-lo como um desonrado, responsável pela decadente campanha e pelo rebaixamento do Juventus. Mas o que nenhum jornal falou foi que, depois do dia do pênalti perdido por Rafael, nunca mais o matador voltou a agir. Perderam-se inúmeros gols e nenhum outro jogador foi abatido.
Em casa, aposentado e com a família, Rafael mandou enquadrar sua foto com as mãos na cabeça após perder o pênalti. Toda vez que olhava para ela, ele tinha a certeza de que ainda, em algum lugar, ainda lhe restava um fã.
Pelé dizia que o Reinaldo, famoso jogador dos tempos áureos do Atlético Mineiro, pensava um segundo antes dos zagueiros. Por isso, dava dribles desconcertantes em suas jogadas. Era temido por todas as defesas adversárias. Pelé dizia também, que ele mesmo, pensava três segundos antes dos zagueiros.
Tanto Pelé quanto Reinaldo tinham sorte de serem atacantes. Afinal, toda essa contagem só acontece quando a gente está com a bola no pé. Quando estamos na defesa e o atacante parte pra cima, ou quando a bola é chutada pro gol, nos sobram apenas frações de segundos para pensar. É como o fogo no pavio de uma dinamite. Na trajetória pro gol, a bola conta com toda tirania do tempo a seu favor. Se pararmos pra pensar, é gol.
Na vida não é muito diferente. É incrível como algumas ações podem mudar por completo o resultado do jogo. Beber ou não o último copo. Aceitar ou não o convite pra sair ou a proposta de emprego. Fazer ou não aquele curso. Ir ou não naquela festa. Muitas vezes precisamos pensar e agir rápido, senão, acabamos ficando parados vendo a bola passar.
Cresci nas proximidades do Maracanã. Minhas lembranças da infância foram premiadas com as jogadas de Zico e do time do Flamengo dos anos 80. Uma das jogadas que sempre admirei no futebol é o chamado peixinho. Pra quem não conhece, o peixinho é quando o jogador se joga pra frente como um míssil, de cabeça na bola, sem medo de pé alto ou sarrafo de zagueiro. Normalmente, o resultado de um peixinho é bola na rede.
Um peixinho que ficou marcado na história foi o do atacante Almir Pernambuquinho, do Flamengo de 1966. Almir era um atacante da pá virada, madeira de dar em doido. Ele foi o primeiro bad boy do futebol brazuca. Disputava todas. Para ele, não existia bola perdida. Num jogo contra o Bangu, Almir deu um peixinho e o goleiro Ubirajara espalmou. A torcida já estava de pé comemorando o gol. Havia chovido muito e a área estava um lamaçal só. Caídos no chão, Almir e Ubirajara se entreolharam e viram a bola parada em uma poça d’água em frente à linha do gol.
Os dois saíram catando cavaco desesperadamente. Almir, mesmo em vantagem, percebeu que, se resolvesse se levantar para chutar a bola, o goleiro Ubirajara pularia e a alcançaria com as mãos antes dele. Não vacilou, pulou de cara na bola, na grama, na lama. Empurrou-a para dentro do gol com a cabeça. Foi pura raça, foi gol do Almir-Raça! Em seguida ele se levantou e mal dava para identificar o seu uniforme, que antes rubro-negro e agora estava marrom, coberto de lama. Com esse gol, o Flamengo venceu o Bangu por 2 a 1.
A foto de Almir no chão, com o rosto coberto de lama, cercado de pés e seguido pelo goleiro com os olhos arregalados virou capa de jornal. Chegou a ser capa da revista France Football. Foi o peixinho mais feio e o mais bonito até então. Não cheguei a ver o gol de Almir, mas, durante a minha vida, vi muitos peixinhos. De Zico, Bebeto, Renato Gaúcho e até de Junior Capacete, mas em sua época de Junior Maestro, no Flamengo de 1992. O tempo foi passando e o peixinho foi ficando cada vez mais raro. Hoje, não me lembro do último que vi.
Hoje eu olho para o jornalismo esportivo e me parece que, para não declarar a extinção do peixinho, muitos jornalistas consideram algumas cabeçadas, onde o jogador apenas cai no chão, como peixinho. Mas nada se compara aos peixinhos dos velhos tempos. Hoje parece que há mais dinheiro do que futebol em jogo. Já imaginou um milionário rolar na lama? Jamais.
Enquanto isso, continuo torcendo de teimoso. Vejo muitas vezes os craques milionários esticarem os pés só pra cumprir tabela, fazer de conta que tentaram. Afinal, todo torcedor sabe lá no fundo que só com um peixinho ele alcançaria aquela bola.
Curiosamente, no fim da carreira, Almir ficou conhecido por denunciar as falcatruas do dinheiro no futebol. Num lance infeliz, o bad boy da Gávea encontrou seu fim no calçadão da Avenida Atlântica em 1973, quando foi defender atores do grupo Dzi Croquetes que estavam sendo ameaçado por um grupo de portugueses homofóbicos. Um dos portugueses sacou um revólver e atirou no mais corajoso atacante que o futebol brasileiro já conheceu. Almir morreu na hora. O crime nunca foi esclarecido pelas autoridades. Os portugueses sumiram, e o grupo Dzi Croquetes não existe mais. Só o que ficou foram as saudades de Almir Pernambuquinho e do peixinho.
(Almir no centro, Silva na direita da foto. Uma das melhores duplas de ataque que o Flamengo já teve.)
Recentemente a seleção brasileira de vôlei masculino entregou um jogo para que tivesse um caminho mais fácil para a final. Talvez você considere antiético esse comportamento, mas nem todos pensam assim.
A palavra ética vem do grego Ethos, que quer dizer costume. Ser quem você é. Já a moral, diferente da ética, seria o viver para os outros, visa um comportamento mais normativo, um padrão social. É dever da ética regulamentar a moral, colocando limites para que esse padrão de comportamento não prejudique o indivíduo.
Além disso, o indivíduo ético possui 4 características básicas: 1 ser consciente de si e dos outros; 2 dotado de vontade própria e capaz de dominar seus impulsos; 3 ser responsável por suas ações; 4 ser livre e autônomo.
Pode-se dizer que a seleção brasileira de vôlei seguiu todas essas características. Consciente de si e dos demais times, escolheu seu adversário e consequentemente o caminho para o título. Foi capaz de dominar seus impulsos e orgulhos já que a derrota era melhor para o time.
Se responsabilizou pela ação e suas conseqüências, não desrespeitando os adversários e jogando de acordo com o regulamento. Ser livre e autônoma. Escolheu seu adversário sem sentir a pressão de torcida, imprensa ou dos demais times.
Se considerarmos que o objetivo da seleção é ser campeã, sem ferir os regulamentos, e divulgar o esporte no país, conseguindo mais retorno para seus patrocinadores, podemos considerar que eles atingiram os seus objetivos de forma ética.
Agora vamos ao futebol. Imagine se estiver nas mãos do Atlético Mineiro a opção de tirar o título do Cruzeiro. Ele entregaria o jogo ou ajudaria o seu rival a ser campeão e ganhar dinheiro para investir em novos reforços no ano que vem? Isso sem falar nas piadas? Se fosse você, o que faria?
Jogar bravamente e ajudar seu rival a ser campeão seria uma atitude ética ou apenas moral? Particularmente, eu acredito que seria uma atitude moral, um jogar para os outros, prejudicando a si mesmo honrando o regulamento que o colocou nessa posição e fazendo vistas para a imprensa.
Isso acontece muito no modelo de Campeonato Brasileiro com pontos corridos. Acho que a melhor maneira de ser ético é defendendo a si mesmo. No caso do futebol, no mata-mata.
Você acredita que o Grêmio tenha entregue o jogo ao Flamengo para evitar que o Internacional fosse campeão? E você, o que faria?
Estou triste e cansado de falar de política, embora tenha sido ela que afastou o Zico do meu Flamengo. Por isso, sobre o caso só direi o seguinte: a maior perda não é a saída do Zico, mas sim a permanência de safados como o Leonardo Ribeiro.
Eu cresci vendo o Zico jogar. Zico, Junior e Andrade são meus maiores ídolos no futebol. Como eu jogava recuado no meio de campo, costumava dizer que eu era o Andrade. Jamais tive a pretensão de ser o Zico.
Pra mim, o Zico é como o John Lenon ou Paul McCartney para os beatlemaníacos. Posso dizer que ele faz parte do que me tornei. Foi com o exemplo do Zico que cresci apaixonado por futebol.
Você não imagina o que é subir as rampas do Maracanã, seguindo a camisa 10. Pequeno, não via nada além da camisa 10. Quando então, eu de mãos dadas ao meu pai, chegávamos às passagens que dão acesso à arquibancada, o coração disparava. A luz do sol invadia os olhos. O barulho era ensurdecedor, milhares de pessoas gritando e cantando para o Flamengo. Muitas crianças choram quando se deparam com isso, eu sempre me mantive firme. Eu sabia que aquilo era bom pra mim.
Hoje, ainda estou refletindo sobre a pancada que levei: “Zico fora do Flamengo“. Ninguém começa um relacionamento pensando no fim. Fiquei feliz com a entrada do Zico na diretoria rubro-negra. Mas se eu soubesse que a saída seria tão triste, não sei se apoiaria.
Pensei durante horas sobre o que escrever aqui. No Urublog saiu o título, “o post mais triste”, aqui também creio que seja. Acho que milhares de blogs estão tristes hoje. O clima é de tristeza. O preto e o vermelho nunca foram tão tristes.
Eu dizia que o Brasil perdeu pra ele mesmo nas quartas de final da Copa do Mundo. Mas vendo os outros jogos, vi que a Holanda fez por merecer, o time está jogando com garra, está comendo grama, literalmente. Parabéns Holanda. #bazinga
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