
Ao contrário de artigos e tratados filosóficos, prometo ser breve para explicar a heresia do título. Assim como Kant, o rock criou e abriu possibilidades geniais para a humanidade, porém, esbarrou em preconceitos. O rock se achou uma música de excelência “a priori”. O juízo “a priori” de Kant, resumido e destruído em miúdos, quer dizer que o ser nasce com uma condição a tal coisa, uma potencialidade. Segundo o filósofo o homem já nasce com condição racional, noção de tempo e espaço. Ele acreditava que isso é inerente ao ser humano, que ele já vinha ao mundo com essas qualidades, desconsiderando a experiência. Foi assim, desconsiderando a experiência e a vivência, que após gerações férteis o rock se achou genial por excelência música “a priori”, acima dos demais gêneros. Pais aficionados começaram a criar seus filhos ouvindo rock, só clássicos. Mas seus filhos iam de carro de casa pra escola e da escola pro shopping, e nada mais. Não havia mais vivência, experiência. Não havia mais rodas de violão, os rolés e a correria das bandas. O rock foi se enfraquecendo, envenenado por si mesmo, e assim como Kant e o juízo “a priori” ficou parado no tempo. Hoje criticam o rock colorido, mas ele é tudo o que sobrou, é a grande contribuição de uma geração de roqueiros criados na Disneylândia.
Já Sartre é como o popstar que joga para a plateia. É inegável a sua grande contribuição para o desenvolvimento do pensamento humano. Ele deixou essa história de “a priori” no passado. Porém, é preciso reconhecer também que a maioria das pessoas conhecem mais detalhes sobre o seu relacionamento com a Simone de Beauvoir do que sobre a sua obra filosófica. Coisas geniais também saíram do pop. Embora eu discorde, 99% das pessoas consideram Michael Jackson genial. Porém, é inegável que ele ficou mais famoso por andar pra trás no moonwalker do que pelas músicas da época de Jackson’s Five.
Enquanto Sartre conquistava o público, seu amigo de militância política e de filosofia Maurice Merleau-Ponty, corria por fora. Pegou a fenomenologia de Husserl e Heidegger e tornou-a ainda melhor. Colocou um tempero especial na mistura, incluiu o corpo na jogada, dando moral para a experiência. Viu que a essência estava na vida. Na alegria ou na tristeza, o que vier dá samba. E é seguindo esse método que o hip hop pega as raízes da África e coloca no cotidiano do Brasil sem ignorar o gingado. Pra quem achava pouco, o hip hop ainda foi pegar elementos emprestados lá nos EUA. Contemplou o tempo, a rima e o compasso. Tudo isso deu origem a uma mistura que fez muita gente torcer o nariz, mas que está sempre se renovando, e em meio a um corre e outro, tem revelado ótimas gerações reconhecidas pelo partido alto.
Texto publicado também na minha coluna quinzenal no Portal do Cambuí.








