Pichação: arte ou crime?

agosto 15th, 2010 § 0 comments § permalink

Esse é o tema de uma pesquisa que estou fazendo no curso de filosofia. É uma pesquisa pequena, pois sei que o assunto dá muito pano pra manga.

É comum eu ouvir pessoas me perguntando: você vai pesquisar sobre pichação ou grafite? Minha pesquisa é mesmo sobre pichação como arte. Grafite, pra mim, não tem mais o que se discutir, uma vez que empresas pagam pelo trabalho, existem cursos e o melhor, já entrou no museu. Acredito que o grafite já se consagrou arte, e comercial. Por isso mesmo, vem se tornando o mais novo alvo de pichações.

Grafite e pichação sempre foram aliados. Um não atropelava o outro. Mas quando o grafite começou a ser visto como arte, muita gente se utilizou dele para fugir da pichação. Pessoas pagaram para que grafitassem o seu muro, sendo assim, ele não seria mais pichado. Muito desses grafites, atropelaram várias pichações, começando aí um conflito. Hoje, o grafite aliado é visto com maus olhos pelos pichadores.

Para ambientar melhor o assunto, postei abaixo dois vídeos, um sobre a pichação no Rio de Janeiro, outra sobre a pichação em São Paulo.

Se você souber de algo sobre o assunto, tiver um livro para indicar, ou qualquer dica, por favor, deixe seu comentário.

“Arte como crime. Crime como arte.”

- Hakim Bey

Pichação no Rio – Que o mundo veja

Pichação em SP – Pixo

Pixação em exposição :: Caligrafia Mau Dita

julho 13th, 2010 § 0 comments § permalink

Em uma celebração cultural da pixação, também conhecida por “pixo”, o Espaço Matilha Cultural recebe, do dia 13 a 31 de julho, a mostra Caligrafia Mau Dita, dedicada ao trabalho do grupo Os Muito Loucos e convidados da cidade de São Paulo e ABC.

A exposição compreende todo tipo de material gráfico produzido pelo grupo, como esboços caligráficos e folhinhas (peças trocadas entre grupos de pixação para manter viva sua cultura caligráfica). Entre outros destaques do evento, estão o lançamento do documentário Caligrafia Mau Dita, dirigido por Jey (Flávio Ferraz, um dos organizadores da mostra), fotografias de João Wainer e Victor Moriyama e ilustrações de Paulo Ito, artista plástico e ilustrador que aborda o pixo em linguagem de HQ.

Fonte: site da revista Zupi

+Informações:
Exposição: Caligrafia Mau Dita
Data: de 13 a 31 de julho de 2010
Local: Espaço Matilha Cultural
Endereço: R. Rego Freitas, 542, São Paulo
Horário: de terça-feira a sábado, das 12h às 20h
Site: Matilha Cultural

Pixação é arte e já virou livro

junho 14th, 2010 § 1 comment § permalink

Ttsss… A Grande Arte da Pixação em São Paulo, Brasil é o nome do livro lançado pela Editora Bispo que conta a história da pixação em São Paulo.

Se quiser, você pode baixar o PDF do livro aqui. Tudo na vida é uma questão de ganhar a senha.

O Cristo pixado e um poema tardio

maio 25th, 2010 § 0 comments § permalink

Crixto

ganharam a senha do Cristo
pixaram sua cara, de pedra
um tapa na cara de uma sociedade
que não mostra sua outra face, fascista

por mais que se tape os olhos
a pixação surge na cara dura, do Cristo
é o caos assumido, pixado
assinado embaixo

águas passadas
o Cristo já está de cara lavada
seus valores continuam de pé
mesmo que nos custe caro
a cara à tapa

nas costas do Cristo
o pecado come solto
a arte como crime
o crime come a arte, manha
tudo na vida
é uma questão de ganhar a senha

Pixaram o Cristo, que pecado.

abril 27th, 2010 § 2 comments § permalink

Um amigo meu me perguntou o que eu achava da pixação no Cristo. Ironicamente respondi: um pecado.

Depois disso, muita gente veio discutir, pois sabem que defendo a pixação como arte. Acredito que esse fato em si, como se trata de ano de eleição, tem muita coisa por trás.

Aqui no Brasil o pessoal apronta mais nas eleições do que no carnaval. A frase pichada (com “ch” porque essa não se tratava de arte) perguntando da tal Engenheira Patrícia e a desculpinha dada pelo detido é de morrer.

No cristo estava pichado: “Onde está a engenheira Patrícia“. E depois de preso, o responsável disse que: “era um alerta sobre as inúmeras pessoas que desaparecem no Brasil“. Ah, vai se fuder né?

Mas voltando à discussão, um outro amigo me fez a seguinte pergunta: “Uma arte continua sendo arte quando degrada outra?” Eu lhe respondi com outra pergunta: “Uma vida continua sendo digna mesmo quando degrada outra?

Não quero ser radical, mas acho que a partir dessa reflexão é possível entender melhor a pixação.

Acho triste ver a que ponto nossa sociedade chegou. Ter um cartão postal internacional pixado e mesmo assim, muitas pessoas continuarem sem enxergar o que está acontecendo. Continuam vivendo na superficialidade do senso comum do jornal nacional.

Acredito que nessas fotos tenha ficado claro que a pixação é um sintoma de pele de uma sociedade doente.

O que a Pixação tem em comum com a Caligrafia Árabe

abril 14th, 2010 § 5 comments § permalink

Pixação, com “x” é a pichação arte, diferente das pichações de antes dos anos 80, que eram políticas ou de bandas Punks e Heavy Metal. Você deve estar se perguntando: ARTE? Calma, eu vou chegar lá.

A Caligrafia Árabe, durante muito tempo foi uma das únicas representações artísticas permitidas pelo Islã. Segundo uma revelação trazida por Maomé, era proibida qualquer representação gráfica realista. A partir daí, todo poder criativo do povo árabe se voltou para a caligrafia, tornando-a uma obra de arte indiscutível. Da opressão nasceu a arte.

(isso estampado num muro, seria vandalismo?)

A pichação nasceu com protestos políticos, durante os anos 80 estampou nomes de bandas. Seu visual é inspirado nas runas. Exatamente a partir desses anos, a população brasileira praticamente  dobrou, as cidades ficaram maiores e muitas pessoas foram excluídas.

Nascem as favelas, a periferia e toda as comunidades que passam a viver como refugiados dentro do seu próprio país. É nessa comunidade que vivem os pixadores. Muitas vezes barrados na porta de shoppings, lojas ou de bancos, a maneira que eles encontram de “marcarem presença” é através do pixo.

A caligrafia evoluiu, existe uma gama de estilos. E assim como a caligrafia árabe, a pixação nasceu da opressão.

Você pode continuar considerando pixação vandalismo, mas como diria Hakim  Bey, é a arte como crime e o crime como arte. O pixo é uma arte de protesto. Você acha que a pixação deixa a cidade feia? E o esgoto a céu aberto? As favelas? As escolas sucateadas, abandonadas pelo governo? As ruas sem pavimentação e sem iluminação das periferias? Isso você acha bonito?

Como diria Choque (pixador):a pixação surge como uma doença de pele na cidade, que põe entranhas pra fora. Compreendendo a pixação, a sociedade estará compreendendo ela própria, pois toda manifestação artística é reflexo direto dos acontecimentos e valores da sua época. Olhar para a pixação é olhar pra dentro de si próprio, e com certeza, você verá muitas coisas que não irão agradar.

“A sociedade que nos critica é a mesma que nos educa”

(pixado em um muro de SP)

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