Jean Charles, o filho (morto) do Brasil

abril 18th, 2010 § 0 comments § permalink

Acabei de assistir o filme Jean Charles. Não é o melhor filme que já assisti na vida, mas dizer que nada mudou depois de vê-lo é mentira.



Temperado com a frieza britânica e a malandragem brasileira que Jean Charles parecia representar muito bem, o filme é ótimo. Paisagens contrastantes no faz valorizar não somente a beleza londrina, mas também de coisas simples. Mesmo o assistindo fora do “time” do jornalismo mundial, acho o filme atual e recomendo a todos.


Sobre o caso Jean Charles, acompanhei pela TV e internet o quanto pude, vi que mesmo com o filme e pressão da mídia os britânicos continuam cagando e andando para o caso, e mais precisamente, para imigrantes de países em desenvolvimento.

Uma das falas mais inteligentes do filme é: “lembremos que Jean Charles só foi morto porque foi confundido com um muçulmano”. Talvez não fosse a hora do Jean, mas quem sabe qual será a hora dos brasileiros. Afinal, o preconceito vai e vem sem deixar explicações.

Não quero incentivar nenhum orgulho brasileiro, pois Nietszche já dizia que todo nacionalismo é burro. O que quero incentivar é a reflexão de quanto vale uma vida, por mais diferente que ela seja da sua. Até que ponto o medo te dá direito a atirar cinco vezes na cabeça de outra pessoa?

Fora isso, o filme me fez refletir sobre nós brasileiros. Convido todas as nacionalidades a participarem da reflexão. Falo brasileiros por ter mais conhecimento de causa.
Existem dois tipos de brasileiros:

O primeiro são os que podem apostar no futuro. São aqueles que podem estudar sem se preocupar em ganhar o seu pão de cada dia. Os que podem apostar numa profissão, com estágios de salários míseros. Que são felizes com o que fazem e muitas vezes se definem pela profissão.

O segundo tipo não aposta no futuro porque não tem fichas. Ele tem que estudar e trabalhar, isso, quando consegue estudar. É aquele que tem que se desdobrar para viver. Literalmente tem que ser dois. Não só na questão mecânica das tarefas, mas na personalidade. É aquele que precisa fazer o que gosta nas horas vagas e ter um emprego para se manter. Meu pai, operário de fábrica, sempre me disse: Luiz, você acha que alguém nasce com vocação pra ser operário de fábrica? Desde pequeno eu sempre soube a resposta.

Esse tipo de brasileiro tem que engolir sapo, ouvir generalizações sobre sua profissão, mesmo que sabendo que ele não nasceu nela. Ele talvez tenha nascido branco, negro, pobre, gordo, mas não mecânico, operário, eletricista. Essa profissão, talvez seja o carma que ele tenha que carregar para o resto da vida, sorridente, porque senão pode perder o emprego. E parece que esse carma é cada vez mais evidente para deixar claro qual tipo de brasileiro você é.

Duiú ispiqui ingliche? A língua como forma de poder.

dezembro 17th, 2009 § 2 comments § permalink

Pra resumir, esse vídeo do Youtube mostra apenas as legendas e o áudio de uma conversa entre um pessoa que fala inglês e outra português (do Brasil). O título é: “Sua empregada fala inglês”. Aí, e pergunto: ela deveria falar? Tem a obrigação? Recebe um salário condizente a isso?

Choveram comentários à altura do vídeo, rindo do fato da “empregada” (que daqui por diante chamarei de brasileira) não entender uma palavra em inglês. Isso pode até ter sua graça, a falha total na comunicação, mas não é mérito exclusivo da brasileira.

Pense: você ligaria para a Alemanha sem ao menos procurar saber como se fala alô, por favor, obrigado e tchau? Quem é mais ignorante, uma brasileira que muito provavelmente não recebe 1/5 do saário de uma secretária bilingue ou uma pessoa que tem dinheiro para fazer uma ligação internacional, mas não se dá ao trabalho de tentar falar ao menos uma palavra no outro idioma?

O engraçado são os colonizados rirem de sua conterrânea. Pois provavelmente seu status social é muito menor do que alguém que tenha o inglês como língua nativa. O que me deixa triste é ver a demosntração de desconhecimento da própria língua nos comentários. Veja que em um deles a brasileira é chamada de “impregada”. Que inversão de valores. Será que só acontece no Brasil?

Imagem1

Um ótimo artigo sobre o Dia da Consciência Negra

novembro 25th, 2009 § 3 comments § permalink

Reproduzo aqui na íntegra pois concordo com cada palavra do texto.

zumbisomos_ae

DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA
Minha pele não tem cor

Por Elka Macedo em 24/11/2009

É costume pedirem para eu classificar minha pele em preto, branco, vermelho ou amarelo, mas ninguém entende que, como o disco de Newton, sou fruto da junção de todas essas cores. Não adianta perguntar, eu não sei qual pele visto porque minha amarelada pele negra não consegue se separar da minha epiderme branco-avermelhada.

Mas se mesmo assim quiserem que eu busque em minhas características físicas traços que me agrupem numa única etnia, provarei mais uma vez a impossibilidade desse feito – afinal, segundo a química, não é possível diferenciar os elementos que compõem uma mistura homogênea, logo, não poderei me enquadrar em um único grupo.

Talvez nem assim haja desistência, mas aí é só buscar um trunfo chamado árvore genealógica, quem sabe vendo a miscigenação que é a minha família, desistam dessa vil classificação que sobrevive de marginalizar e enobrecer pessoas pelo seu fenótipo, sem levar em conta sua condição primeira de pessoa-cidadã.

E a quem interessa isso? Quem inventou a hierarquia das cores? Quem estipulou o valor comercial da pele? Acaso somos produtos que precisamos passar por um controle de qualidade ditado pelo (mau) humor do poder? Por que se fazem milhares de conferências, seminários e congressos para discutir uma igualdade de discurso e sempre se chega à conclusão de que o racismo ainda existe e de que o preconceito ainda persiste? E você já parou para pensar o que está sendo feito pra mudar essa realidade?

A cor dominante

Em que gaveta está guardado o livro que trata dos Direitos Humanos? Em que lixeira ficou jogada a ética? E a moral, será que se perdeu em alguma turnê de conferências? Não há como não refletir sobre essas questões. Todos nós temos um conceito pré-estabelecido, ou melhor, um preconceito sobre alguém ou alguma coisa – e você, já se perguntou onde esconde o seu preconceito?

Sabe o que é mais preocupante? Costuma-se comemorar dias como o 13 de maio (“abolição da escravatura”) e o 20 de novembro (dia da consciência negra). Nas escolas de ensino fundamental fazem até concurso para escolher o negro mais bonito, mas se esquecem de refletir sobre o sofrimento e a luta desse povo que foi arrancado de sua pátria para servir à aristocracia de outra terra.

E como o Dia da Consciência Negra não movimenta o mercado consumidor, o máximo que a mídia traz é uma nota falando que, dos mais de cinco mil municípios do país, pouco mais de duzentos decretaram feriado nesse dia. É, parece que na hierarquia da nossa TV em cores, o branco é a cor dominante.

Fonte: Observatório da Imprensa

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